FOME: Josué de Castro e seu tempo

     Quando cheguei à Universidade, a primeira coisa que fiz foi procurar conhecer a Biblioteca Central. A partir daí tornei-me um frequentador nato. Ali li obras memoráveis como Canto Geral, de Pablo Neruda, Os Miseráveis, de Victor Hugo, Os Sertões, de Euclides da Cunha, Relato de um Náufrago, de Gabriel García Marquez, Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos e, principalmente, Geografia da Fome, de Josué de Castro. 
     O ano era 1989. A edição de Geografia da Fome, por mim lida - acredito ser a de 1946 (não tenho o nome da editora), continha 314 ou 319 páginas além de um glossário de A a Z de 14 páginas com termos e significados regionais brasileiros como acarajé, açaí, beiju, cará, chibé, farinha d'agua, igarapé, moquem, piracuí, piracema, tacacá, vatapá ( 4), etc.

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     Nessa obra, o autor cita mais de 140 vezes a palavra FOME. Como se fosse uma em cada duas páginas, tecnicamente falando. O fenômeno da fome endêmica e epidêmica, levou o pesquisador a fazer um mapa do Brasil em todas as regiões geográficas,. Mas, foi a partir do  Nordeste e do   Norte do país, que o médico e sociólogo concentrou melhor seus estudos científicos.
     Foi  a partir dos anos 30 que o dedicado jovem analisou detidamente a questão da má alimentação (ou falta dela) dos moradores dos mangues, dos retirantes, do caboclo amazônico. Os resultados obtidos são de partir o coração das pessoas sensatas. Pior: saber que quase um século depois dessas constatações a fome ainda castiga a Amazônia, o Brasil e outras partes do mundo, é lamentável. O fenômeno continua grassando, sempre. É "a fome em grandes plantações" (Geraldo Vandré).   
     Josué Apolônio de Castro, nasceu em Recife (PE) em 5 de setembro de 1908 (no mesmo ano em que morreu Machado de Assis). Era formado em Medicina e Filosofia pela Universidade do Brasil. Foi professor de geografia humana na Faculdade Nacional de Filosofia, aos 31 anos. Considerado o "precursor no Brasil dos estudos sobre alimentação e nutrição". Vindo a tornar-se "acatado em todo o mundo como especialista nos problemas da fome e do subdesenvolvimento geral" (1), principalmente depois da publicação das suas duas principais obras: Geografia da fome (1946) e  Geopolítica da fome (1951), traduzidas em mais de 25 idiomas. 

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     "Detentor do Prêmio Roosevelt (1952) e do Prêmio Internacional da Paz (1954), presidiu o Conselho da ONU para Alimentação e a Agricultura (FAO) entre 1952-1956; a Campanha da Luta contra a Fome, da ONU (1960);  e o Comitê Internacional de Migrações Europeia (CIME) em 1963. Em Paris, presidiu ainda o Centro Internacional para o desenvolvimento; em Londres, foi vice-presidente  da Associação Parlamentar Mundial" (2). Essas representações fê-lo viajar para vários continentes, fazendo conferências, sempre. 
     Em 1964, teve seus direitos políticos cassados pelo regime militar, indo exilar-se na Europa. No dia 24 de setembro de 1973, 19 dias após ter completado 65 anos de idade, faleceu em Paris. Nesse mesmo ano morreram duas figuras de grande relevância latino-americanas chilenas: o presidente Salvador Allende e o poeta Pablo Neruda. 
     Em 2004, embalados pelo Fome Zero do governo federal, o Banco do Brasil e a Petrobras lançaram o "Projeto Memória", para ser executado pelas instituições educacionais, em todo território nacional, com o tema: "JOSUÉ DE CASTRO - por um mundo  sem fome", cujo Objetivo Geral diz: "Divulgar o pensamento e as teorias de Josué de Castro e suas contribuições para a compreensão do fenômeno da fome, suas causas e consequências na sociedade atual".
     Para justificar a eficácia do projeto, as duas Fundações elencaram os seguintes itens: 1. Josué de Castro, ainda jovem, se sensibilizou com a fome e com a desnutrição de seus conterrâneos que viviam no mangue, em Recife. Os retirantes que fugiam da seca e capturavam caranguejos na lama para se alimentar, foram, para o pesquisador, a  primeira manifestação de que a falta de alimentos era mais um problema político do que natural; 2. O jovem médico conquistou reconhecimento mundial a partir de sua atuação política e de seus livros que abordam o fenômeno da fome e editados em quase 30 países; e 3. Trazer para a atual realidade brasileira os estudos desse mestre ao tema principal: fome. E que, vergonhosamente persiste em não ser erradicada, corroendo assim o mais dignificante bem do ser humano: A VIDA.
     Tão rica quanto a sua biografia é a sua bibliografia, cujas obras principais somam-se mais de duas dezenas, traduzidas para mais de 25 países (e ainda bastante lidas) como Dinamarca, Japão, Rússia, E.U.A, França, Alemanha, entre outros. Curiosamente, quando ainda um acadêmico, Josué conseguia administrar bem seu tempo entre os  estudos  biológicos com a literatura. Só para ser ter uma ideia, entre 1927 e 1930, escreveu seis livros de poesia. O primeiro deles, Raça Preta, aos 19 anos.
     "Homem profundamente intelectual, metódico e determinado construiu uma sólida base científica que pôde exercitar, principalmente, na atividade docente que, sem sombra de dúvida, foi a que mais lhe trouxe satisfação, quer pelo contato com os jovens ou por lhe permitir produtivo trabalho de pesquisa, este responsável por consolidar sua crença na ciência e na tecnologia" (2). Outro aspecto: a sensibilidade do pesquisador diante da análise e interligação de fatos.
     Seu primeiro livro, Geografia da Fome, de 1946, quando tinha 37 anos, tem conceitos multi e interdisciplinares que impressionam o leitor. São vários os ramos do conhecimento abrangidos: "ecologia, biologia, geografia, política e ciências sociais" (2).
     "A fome sempre existiu, mas no trabalho de Josué de Castro, sua denúncia foi considerar a fome como fenômeno social, criação do homem e sua realidade como força social. O novo não é o fenômeno, mas a perspectiva pela qual se percebe sua trágica realidade" (2).
     São dele, por exemplo, as seguintes declarações:
    
     "O maior absurdo da nossa sociedade é termos deixado morrer centenas de milhões de indivíduos de fome num mundo com capacidade quase infinita de aumento de sua produção e que dispõe de recursos técnicos adequados à realização desse aumento".   

     "... não podemos viver num mundo partilhado por 2/3 que não comem e, tendo consciência das causas de sua fome, se revoltam, e 1/3 que come bem - às vezes demais - mas que já não dorme com medo da revolta dos 2/3 que não comem".

     Na Bahia, cursou Medicina. Mesmo com dificuldades, seu pai, Manoel Apolônio de Castro, consegue mantê-lo na Faculdade e o moço conclui o curso em 1929, aos 20 anos, já no Rio de Janeiro. Sobre aquela instituição disse, certa vez, o ex-aluno:

     "A principio uma impressão de deslumbramento e de veneração por seus velhos muros, pela austera fachada da sua escola. Depois, de desencanto no que diz respeito ao ensino ali ministrado. Aliás, não só a Faculdade da Bahia, mas depois a do Rio, também me desapontou por completo. Entrei com grande entusiasmo e saí com interesse quase morto ´pela maioria dos assuntos, na forma em que eram apresentados. Poucos professores me entusiasmaram".  

     Esse desalento confesso passou. E Josué começou a preocupar-se severamente com o fenômeno da fome. Suas "visitas" se estenderam por quase todo o Brasil. Mais, evidentemente, nos rincões nordestinos e no silencioso e distante mundo: a Amazônia. Quando, então, o país passou a ser o seu "laboratório natural de observação". Por que diferentes "brasils"?
     Falar sobre a fome com conhecimento de causa (em plena década de 30) não era tarefa fácil. Era quebrar  tabu. E assim o fez aquele pernambucano. O fez rompendo com as velhas e insustentáveis teorias; com as falsas interpretações; com os deploráveis preconceitos raciais e climáticos, com o malthusianismo  adotado no terceiro mundo, etc.
     Numa de suas palestras mundo afora, aquele peregrino relatou assim, como tudo começou: "Criei-me nos mangues lamacentos do Capiberibe, cujas águas, fluindo diante dos meus olhos ávidos de criança, pareciam estar sempre a contar-me uma longa história".
     Realmente foi  uma longa história. A história de um homem dedicado com afinco à ciência, à vida, às próprias origens (jamais à fama, à glória). Dedicada às letras, à esposa, aos filhos. É impressionante a vasta teia do conhecimento que suas teorias envolveram muitas outras ciências, dentro e fora do Brasil - uns não querendo a fome nas suas nações; outros perplexos por tantos milhares de brasileiros  vítimas (até fatais) desse fenômeno puramente humano.
     As notáveis avaliações sobre as ideias de Josué por escritores, jornalistas, pesquisadores, estadistas, etc, são vastas, voltadas para esse tema, que, em breve, o Facetas publicará a segunda parte sobre esse cientista, que chegou a dizer ser sua Sorbonne, seu olhar aos "bairros miseráveis da cidade do Recife". Não disse isso movido pela gratuidade do desdém - que não do seu feitio -, mas pela crueldade imposta pela fome às pessoas que não têm o que comer. "Tô com FOME!", diz a graúna do Henfil ou COMIDA, dos Titãs:

                                     Bebida é água
                                     Comida é pasto
                                     Você tem sede de quê?
                                     Você tem fome de quê?

     Notinha útil: "Mãe, o que foi que aconteceu?" Passei a semana toda ouvindo falar de "censura", de "censor", de "mordaça". O que houve? A CF ainda é a 88?
      Lembre-se, nem todo Moraes é Vinicius; é Antônio Ermírio. Nem todo Alexandre é Garcia; é Herculano; é o Grande.

     Fontes
     1. Nova Barsa, vol. 4, SP, 1999, p. 5
     2. Josué de Castro - por um mundo sem fome. Almanaque histórico, BB e Petrobras, 2004.
     3. Josué de Castro - por um mundo sem fome. Guia do professor, Projeto "Memória 2004"
     4. Castro, Josué. Geografia da Fome - a fome no Brasil (Glossário), 1946.
     5. Imagem de Josué de Castro: Brasil Escola

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