"Djalma Batista: o Ser e a Lenda"

     Você sabe quem foi Djalma da Cunha Batista? Foi um médico de renome, um homem de letras e um cientista largamente reconhecido pela comunidade científica. Nasceu no Município de Tarauacá (AC), a 20 de fevereiro de 1916 e morreu em Manaus (AM), a 20 de agosto de 1979, aos 63 anos.
     Ainda adolescente veio morar em Manaus. Aqui concluiu o estudo ginasial (equivalente ao ensino médio de hoje) no tradicional Colégio Dom Bosco. Daqui, partiu para a Bahia, onde foi cursar Medicina. aos 23 anos recebeu o diploma de médico, inclusive foi o orador da turma. "Ironia maior só poderia envolver um homem diferente: um amazônida roubava a um conterrâneo de Ruy Barbosa a oportunidade de proferir a oração de solenidade de formatura" (1).
     Notável acadêmico e com larga experiência científica adquirida em laboratório de pesquisas, que resultou, posteriormente, num excelente profissional. Já atuando em Manaus, passou a "presidir a Liga Amazonense Contra a Tuberculose, onde contou com a ajuda de Carlos Melo, Guilherme Garcia Gomes, Wallace Oliveira, Afonso Celso Maranhão Nina, Moura Tapajós e tantos outros abnegados, que recebiam o salário com a mão esquerda para, com a direita, devolvê-lo aos secretário da Liga (Afonso Nina)", para financiar as atividades da entidade.
    Foi por reconhecido mérito "que diversos cientistas batizaram com o nome de Djalma algumas de suas descobertas", como, por exemplo, um fóssil gastrópoda chamado Euomphalus batistia, e não por acaso ou subserviência. Isso não quer dizer, somente, tratar-se de "um médico e pesquisador". Ele era, "sobretudo um humanista, ou seja, tanto poderia ser visto fazendo pesquisa com tubos de ensaio como editando a revista do Centro Médico Amazonense. 
     Em 1996, ano em que - se vivo em matéria estivesse - o Doutor Djalma estaria completando 80 anos de vida. Foi, quando o incansável professor, pesquisador, escritor e articulista da UA (hoje UFAM), José da Silva Seráfico de Assis  Carvalho, mais conhecido no meio acadêmico por José Seráfico, publicou "Djalma Batista: Um Humanista da Amazônia". Se a obra é pequena em conteúdo, é gigantesca em valores históricos, culturais e, principalmente, científico. 
     Na orelha do livro, a Editora (EDUA), fez este registro: "Hoje, quando completaria oitenta anos, é possível que os velhos companheiros que lhe sobreviveram ainda se lembrem dele e de sua contribuição para a vida dos habitantes da região. Mas é sempre bom deixar com os jovens os que não tiveram a fortuna de vê-lo passar, na sua grandeza disfarçada de humildade, uma notícia sobre ele - talvez o último dos humanistas da Amazônia". 
     A obra ora em análise, é interessantíssima e bastante genuína. Pois, o autor, como organizador, além da introdução, é óbvio, soube, cuidadosamente, inserir depoimentos de pessoas ilustres que diretamente conviveram com o cientista, como: "Djalma Batista - O Cientista", por Afonso Nina;  "Djalma Batista - Um Homem de Cultura", Oyama Ituassú; "Djalma Batista - O Médico", Marcos Barros; "Djalma Batista: O Ser e a Lenda", por sua filha Gilma Batista; "Um Bilhete de Djalma Batista", por José Ribamar Bessa Freire; "A Singeleza de Um Grande Homem", por José Seráfico; e "Um Homem de fé à Frente do INPA", pelo então presidente daquele Instituto, Ozório Fonseca.
     Apesar do seu currículo invejável e talento reconhecidamente aceito, nunca deixou de ser humilde, sendo comum vê-lo caminhando à pé de sua casa em direção à academia. Assumiu cargos e funções importantes: Diretor do Departamento de Educação e Cultura do Amazonas, Diretor da Associação Médica do Amazonas, Diretor do Centro de Pesquisas Biológicas do INPA (de 59 a 68), presidente da AAL - Academia Amazonense de Letras, por três mandatos (de 68 a 73),entre outros.
     "Clínico, cientista, homem de laboratório, nem por isso Djalma deixou de revelar seu talento como escritor e cultor das artes". (1). Entre as suas obras destaca-se grandiosamente "O Complexo da Amazônia", publicado no Rio de Janeiro em 1976, apenas três anos antes de sua morte. Por sinal, todos os exemplares foram por ele distribuídos entre amigos e bibliotecas. 
    Seu fascínio pela literatura era algo impressionante, assim como era para Josué de Castro,  pernambucano e também médico, os quais deixaram farta contribuição literária dentro e fora da área médica. Porém, "ninguém estranha que seja assim. Preocupado com a região que lhe serviu de berço, e com a gente que a habita, Djalma dava pouca atenção às coisas materiais - que ocupam todo tempo, a vida toda, de tanta gente" (1).
     Nesse mesmo contexto, Ozório da Fonseca, sentencia: "Djalma da Cunha foi uma dessas personalidades raras que depositavam uma crença profunda e autêntica no homem amazônico, no futuro da Amazônia, na dignidade, na justiça, na honradez, na nobreza do serviço público, na probidade administrativa, na ciência, na ética, enfim nos valores maiores da humanidade". 
      Ao referir-se sobre a sua obra de maior relevância, outro mestre, o professor Ribamar Bessa fez este registro: "É uma espécie de "bíblia" para estudiosos interessados em entender a pan-amazônia, a floresta, os índios, as cidades e seus mistérios".  Isto é, "Djalma Batista, foi o homem da ciência, da saúde e das letras que deixou uma contribuição indelével à história recente da Amazônia". Portanto, o resumo é este: a sua profissão revelou suas preocupações com a pesquisa, voltada para os estudos regionais. 
     Assim foi ele. As 22 anos de idade, numa Conferência realizada na Bahia, em abril de 1938, já devidamente debruçado sobre as "Letras Amazônicas", finalizou aquele evento dizendo: "A mocidade é uma Amazônia de segredos, de grandezas e de magnificências: é uma cachoeira de potencial incalculável de belezas indomáveis. E nós somos a mocidade".
     No final dos anos 40, lutou incansavelmente no combate a tuberculose (numa época em que a doença matava 450 pessoas para cada 100 mil habitantes). A queda desse índice foi significativa após a intervenção desse médico. No mesmo período, em 1946, travou outra batalha. Desta vez contra o paludismo na Amazônia, isto é, a malária que matava tal qual a tuberculose. 
     No final dos anos 50, como diretor da divisão de pesquisas Biológicas do INPA, "lançou-se num programa de bolsas de estudos para graduados, visando à formação de especialistas, mestres e doutores. Não satisfeito, foi mais longe. Criou um programa para formação de pessoal a nível de graduação. Jovens amazonenses, principalmente se já funcionários do INPA, recebiam complementação de seus estudos secundários em cursos pré-vestibulares fora de Manaus" (1).
     Quando ainda era incipiente falar em ecologia regional, em sua última obra, datada de 1976, "O complexo da Amazônia: análise do processo de desenvolvimento", e, com os olhos voltados para o futuro, já expunha a sólida preocupação com o desenvolvimento da região e com o bem-estar do seu povo, é necessário, a qualquer preço, "defender a ecologia amazônica do alargamento de práticas destrutivas, como o desmatamento desordenado, a agricultura itinerante, o esgotamento dos recursos da pesca, etc, que cedo acentuarão o desequilíbrio entre a água, a flora, a fauna, o ar e o próprio homem". lembre o mestre Afonso Nina.
     Ao estudar "Habitabilidade do Amazonas", do amigo Djalma, Oyama Ituassú faz as seguintes observações: 1. "Há que saber que cultura não é privilegio de nenhuma sociedade e depende basicamente do esforço pessoal em busca do conhecimento"; 2.. "Somente a cultura justifica a presença do homem sobre a terra, justamente porque ele é, por sua natureza, um animal social, cujo trajeto histórico demonstra sua evolução". Isso nos remete a "noção subjetiva do mussen e zollen, ou sejas, o ser e o dever ser".
     Quando retornou a Manaus nos anos 40 - só para complementar algumas  de suas iniciativas bem realizadas -, aos 23 anos de idade, a cidade de Manaus tinha apenas 60 mil habitantes. Logo o jovem médico funda o Laboratório de Patologia Clínica que traz seu nome. Hoje quase 80 anos depois, lá está na Rua da Instalação - bem no centro de Manaus - aquela Unidade prestando bons serviços a quem dele necessita. onde, inclusive, estão, também, muitos instrumentos médicos utilizado pelo seu fundador, aos que queiram admirá-los. 
     Gilma Batista, a filha do cientista também completa a obra de Seráfico com quatro excelentes páginas, sobre o título: "Djalma Batista: o Ser e a Lenda". Inclusive este é o tema oportuno para o presente artigo do Facetas. São desse herdeira algumas considerações sobre o genial ser humano que foi seu pai, tais como: 1. "Cresci ouvindo-o falar que gostaria de doar seu esqueleto para os estudantes". Nos seus últimos anos de vida, ser professor foi seu maior entusiasmo, sua motivação maior. 2. Aos seus alunos "dedicou-lhes sua sabedoria, madrugadas sem fim, preparando aulas: durante uma delas desmaiou".
     Finalmente, a tristeza que parte-lhe o coração por assim lembrar aquela data fúnebre, ela fez este registro: "O dia em que se foi estava feio e escuro, chovia. Ele tinha deixado, por escrito, como queria que tudo ocorresse: vestido com a beca que usava para ser paraninfo de seus alunos, descalço, nada de flores ou alarde. Não foi possível cumprir seus desejos. Sirenes ecoavam pedindo passarem à pequena multidão que compareceu para despedir-se dos seus quarenta e poucos quilos de humildade".
     Relata ainda Gilma, que os jornais noticiam o ocorrido. Os seus amigos publicam artigos. Um deles finalizava sugerindo que como os personagens das lendas, tão bem conhecidas pelo amazonôlogo (título pelo qual preferia ser chamado): "DJALMA BATISTA NÃO MORREU, ENCANTOU-SE".
     Em seu artigo, "A Singeleza de um Grande Homem", o organizador da grande obra ora resumida, professor José Seráfico, cobra de forma contundente uma maior dignificância aos humanistas, mas precisamente àquele nascido nos torrões de Tarauacá. Ele cita, inclusive Brecht, o qual  dizia que "infeliz do povo que necessita de heróis". No nosso caso, "mais infeliz é o povo que se esquece daqueles de quem recebeu bons exemplos e que, com seu trabalho, seu talento e sua noção de cidadania, deixaram seu registro para a posteridade".

     Da nossa parte, não vamos emitir conclusão. Cada leitor nosso tira a sua própria, principalmente se forem  levadas em consideração as palavras abaixo, ditas pelo próprio Djalma da Cunha Batista:

                            "Estou convicto de que só há uma força,
                                 hoje, no mundo, capaz de sustentar os ideais
                                     supremo da Liberdade, da Justiça Social e da Paz:
                                          é   a   C  U  L  T  U  R  A!"

      E assim, Gilma finaliza seu comovente depoimento: "Seres encantados não têm idade".

      Fontes
      1.  Seráfico, José (Org.). Djalma Batista: Um Humanista da Amazônia, EDUA, Manaus, 1996.
      2. "Djalma Batista - Cultura e Arte", por Elson Farias (www.franciscogomesdasilva.com.b)
            - sobre os 100 anos do nascimento do cientista - 20.09.2016.
      3. "Dois Djalmas e o Complexo da Amazônia", por Ribamar Bessa (blogdosarafa.co,.br) 
            - sobre os 100 anos do nascimento do cientistas - 13.08.2016.
      4. "Centenário de nascimento de Djalma da Cunha Batista" (almaacreana.blogspot.com)
            - dos dias 20.02.2015 e 04.02.2016.
 
      
  
    

Postar um comentário

0 Comentários