Senhor Alceu Paiva Valença do Brasil

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     No último dia 1º deste mês de julho, Alceu Valença completou 73 anos de vida. Nascido em São Bento do Una, interior de Pernambuco, filho de Décio e Adelma Valença e formado em letras jurídicas pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, por vontade do pai.
    Logo cedo o jovem percebeu que não tinha aptidão para tal. Fato esse que se confirmou na execução da primeira causa como advogado. Foi cobrar o pagamento de um televisor ao cliente inadimplente e quando conheceu a realidade financeira do cidadão, não só desistiu do ofício, como ainda emprestou-lhe dinheiro.  
     Assim percebeu que não "adiantava lutar contra a maré: seu negócio não era a advocacia. Precisava seguir seus impulsos e seu talento (...). A partir dessa guinada, o advogado iniciante deu lugar ao músico, compositor e cantor Alceu Valença" (1).
     Essa decisão contrariou o Dr. Décio e os tios. Mas ele sabia "que o Nordeste era o Brasil, que o Brasil era o mundo todo e que a música era o idioma universal em que podia se expressar". E, antes de se expressar vem a inspiração. No seu caso, ela surge por meio de suas caminhadas. Hábito antigo. Esteja ele em Olinda - onde se refugia num sobrado, na rua São Bento, uma das ladeiras da histórica cidade -, no Rio de Janeiro ou em Paris.
     Ele confirma: "Muitas das composições nasceram desses momentos, em que vagar e observar são únicas atividades". Por exemplo, Andar, Andar, blues de tematicamente urbana, de 88, lançado em 90, nasceu quando o artista caminhava do Leblon a Ipanema, indo para casa de um dos seus músicos; o mesmo com Loa de Lisboa, numa volta poética pela capital portuguesa; ou ainda, Ateu Comovido, após ter saído de uma missa celebrada por Dom Hélder Câmara, da Igreja da Sá, e ficar "tomando uma cerveja no centro da cidade".
     As letras desse trabalho representam a mistura de diferentes elementos. "Aparecem juntos o forró e o rock, o frevo e o bolero, o sertão e Paris, a Lagoa Rodrigo de Freitas e as ladeiras de Olinda". Por esses e outros conceitos, "muitos afirmam que a música de Alceu é uma categoria à parte da MPB", Essa autenticidade surgiu na vida do acadêmico, quando "já dava vazão à sua veia musical". Época em que o violão e os festivais tinham mais significado do que os livros jurídicos e as aulas rebuscadas de latim. 
     Aos 22 anos foi ao Rio de Janeiro participar do 1º Festival Universitário de Música Popular, com a canção Maria Alice, dele e Sérgio Bahia, na interpretação de Ivete e Arlete. Um mês depois, já estava no 1º Festival Regional Universitário de MPB, no Recife. Fazia tais peripécias por ser de família rica, dona de terras; parente influentes no governo; e o pai, além de Promotor de Justiça, era ex-deputado constituinte de 1946. Um dos elaboradores da Constituição daquele ano.
     Formado aos 23 anos em Direito, mas decidiu aventurar-se como artista. Faz uma visita ao Rio de Janeiro, levando consigo seu 1º violão, presente de sua mãe (a quem dedica todas as suas músicas). Não era uma decisão fácil, mas precisava acreditar em si mesmo. Por um mês foi fazer uns estudos nos EUA, onde acompanhou de perto as "reviravoltas culturais que abalavam a América (leia-se América do Norte. O ano era 1969)". De volta ao Brasil, foi trabalhar como jornalista (chegou a estagiar no Grupo Bloch  e no Jornal do Brasil, além de outras redações do Recife). 
     Porém, estava decidido, iria mesmo partir para a música. Assim o fez. Em 1970, foi morar na Cidade Maravilhosa, levando consigo a esposa Eneida (a união acabou em 73) e o filho deles, Alceu Valença Filho, CECEU (consta no encarte de Cavalo de Pau, uma interessante carta do menino Ceceu, ao pai: "Recife, 26 de março de 1982). Estava pronto para a sua 2ª formação. No Rio, juntou-se a outro pernambucano, Geraldo Azevedo, com seu violão de acordes fortes e ritmos de Jackson do Pandeiro. Dois anos depois, em 72, os dois lançaram o disco Quadrafônico, considerado hoje um trabalho histórico no mundo da música brasileira. 
      Em 74, lança seu 1º disco solo, Molhado de Suor; o 2º, Vivo; o 3º, Espelho Cristalino. A partir daí, não parou mais. São mais de 30 álbuns ao longo da carreira, marcada por um catálogo de sucessos nacionais como Coração  Bobo, Anunciação, La Belle de Jour, Estação da Luz, Anjo Avesso,  Rubi, Na Primeira Manhã, Solidão, Cintura Fina, Cabelo no Pente, Pátria Amada, Dia Branco, Vem Morena, entre outros.
     Construir uma carreira artística não é fácil. Mais ainda quando o artista defende piamente "seus valore, suas convicções e seu talento", como vem fazendo  nosso cantor há meio século de carreira. Quando fez o show Vou Danado pra Catende no Teatro Teresa Raquel, no Rio, em 75, e para atrair o público, alugou um elefante e sobre o lombo do animal, de megafone nas mãos saiu fazendo o seu comercial pelas ruas de Ipanema e Copacabana. O sucesso foi tão grande, que o show virou  turnê. 
     Apesar de ainda não ser conhecido do grande público, ele tinha convicção que estava no rumo certo, apesar do cenário nacional não ser favorável. Além do mais, sua música não se encaixava nas vertentes dominantes da época. Seu estilo chamou a atenção do cineasta Sérgio Ricardo, que o chamou para protagonizar o filme A Noite do Espantalho. O "ator" ficou três meses nas filmagens no interior de Pernambuco, quando então, concluiu que precisava materializar o uso de personagens, nos seus shows, discos e nos passeios pelas ruas de Olinda. "Um de seus personagens favoritos é o Velho Quiabo, figura desbocada, uma adaptação do Velho Faceta, o mais conhecido dos integrantes do folclore pernambucano".
     Em 1980, o  sucesso bate à sua porta, com Coração Bobo, mesmo seu autor usando as suas indumentárias. Sua gestualidade do teatro resultou numa grande contribuição  para a MPB. "Nesse campo ele se aliou a nomes como Ney Matogrosso, por exemplo, que começaram a explorar os shows de música como mais que simplesmente apresentação de cantores". Contudo, sua marca brasileira vem mesmo do conteúdo das letras e da origem dos ritmos que refletem no reconhecimento de nossa cultura musical.
     No entanto, foi com Cavalo de Pau, de 82, seu 8º LP, com apenas 8 músicas e menos de 28 minutos de duração que veio a consagração nacional. A própria gravadora tinha dúvidas da vendagem, haja vista ser de praxe um disco chegar ao mercado com 12 músicas. Resultado: mais de um milhão de cópias vendidas. Tropicana (Vicente Barreto - Alceu Valença), estouro nas rádios e nos programas de TV, nas ruas, nos bares, boates, etc, a partir daquele mês de julho. Em seguida, do mesmo trabalho foram bem tocadas: Como Dois Animais, Pelas Ruas que Andei e Cavalo de Pau.
     Mas, para tanto, Alceu percebeu que sua arte havia se tornado a expressão de sua história, ou seja, uma volta a si mesmo, sem se "dar o luxo de deixar nada para trás. Em suas composições estão presentes todos os momentos vividos. Estão a guitarra, a MPB, os hippies, a tropicália, os livros da juventude, os carnavais de Olinda, a literatura de cordel, os repentes, a sanfona de Luiz Gonzaga, as primeiras leituras" (1), e, acima de tudo, as raízes familiares, sem perder jamais, as influencias musicas obtidas com o "avô paterno, Orestes Alves Valença, que o entretinha com os versos da literatura de cordel e com repentes"(1).
     Sua obra, além de criar uma faceta diferente no país, ainda transformou Olinda. "Ali, podemos encontrar todos os elementos que ele nos canta (...), está a sensibilidade de gente morena, que aparece estampada nos versos e na melodia de Tropicana e explicitada em Como Dois Animais" (1). Foi, a partir dos anos 80, que Alceu "extrapolou os limites da antiga cidade, de seu Estado e até do Brasil. Tornou-se efetivamente um grande astro da MPB", com "capacidade de misturar e reunir elementos". Daí ser considerado um homem-artista múltiplo, reconhecido em muitas partes do mundo pela "vontade enorme de fazer música". 
     Seu jeito diferente de cantar o Nordeste vem rendendo-lhe bons frutos culturais, apesar de "ser um artista quase solitário. São relativamente poucos os parceiros. Raros também, são aqueles que gravam canções suas.". Uma pessoa de criação musical bastante particular, o que dificulta suas letras serem interpretadas por outros artistas. "Alceu é um ditador do seu próprio estilo", desabafa um músico, amigo seu. 
     Quanto aos compositores, ele já compôs com Geraldo Azevedo, Carlos Fernando (de Caruaru, juntos desde 72), Vicente Barreto (grandes sucessos como Tropicana, Pelas Ruas Que Andei, Cabelo no Pente,Tirana, etc), Zé Ramalho, o poeta Carlos Penna Filho, Dominguinhos (juntos: Lava Mágoas), Carlos Francisco (juntos: o frevo o Homem  da Meia Noite), cuja amizade perdura desde 1967. Por sinal foi ele que convenceu Alceu cantar frevos, quando o jovem ainda era universitário. É deles Leque Moleque (87). Quanto aos seus intérpretes, destacam-se  Jackson do Pandeiro, com Papagaio do Futuro (72); Elba Ramalho, com o frevo Chego Já; Maria Bethânia, com Recado Falado e Metrô da Saudade; Luiz Gonzaga, com Plano Piloto, entre outros.
     Cabe registrar que o "Grande Encontro", formado há 20 anos pelo quarteto Alceu, Elba, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, rendeu aos mesmos 3 CDs, DVDs e shows país afora.
     Apesar de considerar-se muito aquém do padrão de beleza da época e, para piorar, tímido, não foi fácil enturmar-se com as mulheres. Achou por bem imitar o jeito de ser do seu ídolo, o galã do cinema francês Jean-Paul Belmondo. A receita deu certo. Depois de separar-se de Eneida, atou outros dois relacionamentos, com Anelise Cesário Alvim e Patrícia Mesquita. Depois, com Daniela da Costa Carvalho Miranda, em 92, com quem teve seu 2º filho, Juliano Valença, mas o casamento durou pouco. Em 97, namora a cantora Milene Ariel. Porém, desde 2004, está casado com Yanê Montenegro.
     Se no inicio, a mídia não entende seus sinais, apesar do artista repetir que sua obra não se resume apenas a um local, regional, "hoje quem ouve suas canções é capaz de identificar os carnavais e o frevo de Olinda, as luzes de Ipanema e do Leblon, os cafés de Paris e os circos mambembes do interior do Nordeste, unificados e harmonizados numa mensagem universal, musical."  
     Quem concorda com ele é o poeta e crítico de arte maranhense Ferreira Gullar (1930-2016), em artigo "As vozes da pintura", por ter o Alceu reunido (e estampado) fotos de 12 telas no disco Estação da Luz, de 85, assim: "Juntar pintura e música (...) é o resultado de uma identificação de Alceu com os pintores e com a pintura, e corresponde por outro lado ao caráter abrangente e integrador desse poeta-cantor nordestino que quer cantar - e canta - por sua gente toda e por tudo que ela sonha , sofre e cria".



Encarte de LP "Estação da Luz", de 1985

     Assim finaliza Gullar: "E todo esse mundo pernambucano vira casario e festa na pintura de Zé Som - uma vista de Olinda - que inspirou ao compositor uma canção e que talvez o tenha inspirado também a fazer essa mistura reveladora de pintura e música que temos agora em nossas mãos".
     Quanto ao artista em questão, o mesmo reconhece que toda obra para ocupar seu verdadeiro lugar, seu criador precisa ter apoiadores e admiradores. Por isso, "este disco é dedicado a  Carlos Penna Filho (Poeta do Azul). Renato Carreiro Campos (que me ensinou a ver o ouro das acácias e o sangue dos flanboyants) e a Jorge, aliás, São Jorge,  ou melhor, São Jorge Amado, santo do povo da Bahia e do Brasil".
     Acima - no início deste artigo - "Olinda", ou seja, a tela de Zé do Som. Abaixo, a Olinda, do compositor, cujas duas são mencionadas por Ferreira. As duas se completam: a primeira, revela a vista panorâmica da cidade histórica; a segunda, é um maravilhoso conjunto de palavras em versos de amor, para "sua mulher", assinada por Alceu.

                              OLINDA

                    Olinda
                    Tens a paz dos Mosteiros da Índia
                    Tu és linda
                    Prá mim és ainda
                    Minha mulher
                    Calada
                    O silêncio rompe a madrugada
                    Já não somos  aflitos nem nada
                    Minha mulher
                    Tu voltas
                    Entre frutas, verão e tu voltas
                    Abriremos janelas e portas
                    Minha mulher.

     Sem nenhuma sombra de dúvida, o cantor, o compositor, o "palhaço" Alceu Valença, é e será sempre um dos elementos marcantes da nossa cultura nacional. Portanto, pode ser sim chamado: Senhor Alceu Paiva Valença do Brasil.

     Pesquisa, texto e arte: Angeline, Francisco e Winnie Gomes

     Fontes
     1. Encarte nº 33, de 22 pp. da Col. MPB Compositores - Alceu Valença. Pesquisa geral de Wharrysson Lacerda, Editora Globo/RGE Discos, São Paulo, 1997.
       2. LP "Cavalo de Pau" e encarte - Alceu Valença. Gravadora Ariola, 1982.
       3. LP "Estação da Luz" e encarte - Alceu Valença. Gravadora RCA, 1985.
       4. LP Os Grandes Sucessos de Alceu Valença, Gravadora Philips, 1988.
    

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