Cordel, a literatura popular

     Há alguns anos, quando Paulo Coelho estava no auge da carreira como escritor - único brasileiro a vender 100 milhões de livros em mais de 40 países e dezenas de traduções -, um repórter quis saber de um analista se a obra do mago poderia ser classificada como literatura. A resposta foi imediata: "Se você reformular a pergunta para cordel, te direi que essa sim, é literatura e autêntica" (1).
     O cordel traz uma forma de poesia apaixonante, versando sobre os mais diversificados temas. Conteúdo rico e leitura sem embaraços. O Facetas já abordou este tema, apesar de ter sido de forma superficial, quando publicou um artigo sobre Patativa do  Assaré. Os versos impressos em livretos podem ser encontrados em várias regiões brasileiras. Mas, a fonte mesmo fica Nordeste, principalmente em Pernambuco e Ceará. Lá estiveram (e ainda estão) os grandes autores desse gênero literário que ainda resiste aos conceitos da sociedade atual.
    Era meados dos anos 1980, e a minha turma tinha um excelente professor universitário na UA (hoje UFAM) da disciplina CULTURA BRASILEIRA. Certa vez, o mestre propôs um trabalho individual sobre temas como o carnaval, a feijoada, o samba, o folclore, entre outros. Escolhi Literatura de Cordel. Agora, extraio daquela pequena dissertação alguns tópicos e conceitos dessa cultura popular. Das suas origens aos dias atuais.

Acervo pessoal
    Em todo o mundo, em diferentes culturas, desde os tempos mais remotos, a literatura escrita sempre existiu. Porém, a pequena tradição oral de contar fatos e causos foi se ramificando. Com o surgimento da tipografia e depois das gráficas, a divulgação de pequenos folhetos editados em prosa e versos, conquistou um número maior de leitores.
    Essa foi a trajetória daquilo que se chamou, na França, literatura de colportage; na Inglaterra, chapbook; na Espanha, pliego suelto; em Portugal, cordel. Chegou ao Brasil como o mesmo nome (folhetos pendurados em cordas). Aqui se conta e se canta em prosa e verso, surgindo daí, o poeta popular, o qual diz com seus versos: suas mágoas, suas alegrias, suas esperanças e seus desesperos do dia a dia, seja no mais distante lugarejo do sertão, seja na capital à beira mar.
     O Nordeste tem a maior manifestação popular de literatura de cordel. Onde sempre conquistou - desde a colonização regional - grande público, constituído pelas camadas, tanto da população urbana quanto rural. Na primeira fase, os cordelistas rimavam e versificavam as histórias, as lendas e os exemplos da moral. Com o passar do tempo, eles resolvem escrever versos que refletem a realidade do homem do sertão, principalmente.  
     O tema ganhou corpo e com a migração  de poetas para o eixo Centro-Sul, com eles, é natural, foi o folheto como forma de aplicação de comunicação popular, apesar de sua temática ter sofrido influências em sua utilização, com elementos como a energia elétrica, o rádio, , o jornal e, acima de tudo, a televisão, por um lado. Por outro, o cordel conquistou parte desse novo público.
     Esses fatores influenciadores fizeram os poetas seguirem as novas tecnologias  introduzidas no país. Mas, apesar disso essa literatura continuou viva como elemento cultural autêntico, preservando as suas raízes. Por exemplo, se a televisão, como maior meio de comunicação de massa, fizesse uso da literatura de cordel em parte de sua programação, o país  teria maior identidade cultural na música, no cinema, na literatura "erudita", na educação, etc. Afinal, todos bebem água límpida na fonte inspirado do cordel.
     O pesquisador desse tema e sólida formação acadêmica, Franklin Maxado (Maxado com x; nome artístico), observa: "A nossa música aparentemente é popular, mas as telenovelas, não". Elas  são sedutoras, nos impondo conceitos influenciadores, que atingem diretamente a cultura popular. O grande folclorista Carlos Brandão, que também com com seu colega, já preconizava, nos anos 80, o que hoje, lamentavelmente é a realidade social:
     "No futuro, parte do folclore brasileiro será o que as gerações do povo de agora aprenderam a ver na TV Globo. Mas, folclore é, agora, o que livra o povo de ser, criar e pensar totalmente de acordo com o "padrão Globo de qualidade". E ainda, segundo Brandão, é esse monstro televisivo que a literatura de cordel enfrenta no Nordeste,  no Brasil, como um todo.

Acervo pessoal
     Há quem garanta que os avanços tecnológicos, no caso especifico, o setor midiático, está provocando o desaparecimento das manifestações populares, artísticas, seja na zona urbana ou rural. Apesar de ter sofrido um abalo na sua essência, resiste e mantém a tradição. Porém, o grave problema mesmo é a falta de apoio dos poderes públicos na manutenção forte do folclore nacional, a partir da década de 1960. Enquanto o setor privado avança rápido. Só para melhor ilustrar: o que antes eram os supermercados, agora são os  shoppings centers; o que antes eram as cartas passadas de mão em mão, ou entregue nos correios, hoje são as redes sociais, cujos atrativos disponibilizados aos consumidores, afastam os potenciais apreciadores das tendências populares. Já não mais expostos com tanta frequência os folhetos pendurados em cordas, nas feiras populares. Ali por perto estava o cantador versando e animando os transeuntes.
     Com esse formato social, fica o poeta popular de cantar seus versos ou vender seus folhetos. E quando o faz é ignorado pela maioria das pessoas que defendem os chamados moderníssimos padrões de vida pautado no consumismo de supérfluos.  
     O cordel caracteriza-se pela sensibilidade que pressuponha existir tanto no poeta como no seus consumidores. Era como uma cartilha que estimulava a alfabetização dos ouvintes pelo prestígio que detinha em seu conteúdo; era o jornal noticioso e informativo para as camadas humildes das cidades do interior e até mesmo das capitais. O poeta popular é um dos líderes de comunicação, intermediário da elite com seus livros eruditos, da televisão, dos jornais, do teatro e do povo. É ele, o poeta popular, tem a missão de decifrar, traduzir, decodificar uma linguagem cifrada para outra que o povão - ouvindo ou lendo - entenda. É seu compromisso com a sua gente, com as suas tradições culturais. Leiamos abaixo, um exemplo composto por um desses agentes do conhecimento:

                                 Temos a obrigação
                                 Com os queridos leitores
                                 Trazer-lhes versificados 
                                  Romances superiores
                                  Mostrando livros famosos
                                  Dos ilustres escritores 
                                             O romance Gabriela
                                             Já televisionado
                                             Obra da pena do grande
                                             Romancista Jorge Amado
                                             Que nos traz para o presente
                                             Os costumes do passado
                                                         (Manoel D'Almeida).

     O artista acha que tem de interpretar seus sonhos, suas ambições, seus destinos e ilusões, enfim, o seu dia a dia. Mas, para tal, precisa está preparado: estudar ou acompanhar as notícias de todos os meios de comunicações possíveis. apesar das grandes mudanças ocorridas nos país nos últimos 50, 60 anos no Brasil, ele resiste como o marisco resiste a força da água do  mar.
     "A prática do cordel deve, pois, ser entendida como uma instância  reprodutora da cultura e dos interesses dominantes e não como algo pitoresco como querem alguns  analistas. Ela, na sua ação normativa, transfigura e dissimula ao nível do simbólico o núcleo problemático das relações de formas sociais." (2)
     "Esta dimensão de neutralização e legitimação da ordem geral escapa totalmente a grande maioria dos estudos sobre a literatura de cordel. E é nessa perspectiva que a literatura popular sobrevive e se reproduz apesar das "pressões" do processo ou das profecias quanto ao seu desenvolvimento, como querem alguns" (2). 
     O cordel, portanto, como parte legítima da nossa cultura tem tudo a ver com a real cultura popular. Aliás, é a própria,  ao contrário daquelas pessoas que só produzem alguma coisa, quase sempre pitoresca, com "ajudas oficiais", mas que fogem de assuntos sociopolíticos e polêmicos, perdendo a sua consciência de representante das chamadas classes oprimidas. Viram apenas os "bufões da corte", ou seja, bajuladores  acomodados, sem qualquer compromisso com o legado cultural nacional.
     Daquela primeira pesquisa nos anos 80 para a atualizada agora, muita coisa mudou em menos de 4 décadas. Muitos materiais como o fax, o mimeógrafo, desapareceram; outros estão obsoletos, como como as bancas de revistas, os jornais impressos, etc. Porém, o cordel está aí. Apesar do desinteresse de parte dos leitores em mantê-lo em total evidência. O saber criativo dos seus autores está vivo.
     A tradição não soube conciliar a eficácia do folheto diante  dos agressivos avanços tecnológicos. Um golpe para esse gênero literário. Seria isso a decretação do fim do cordel? Ou sua inspiração e referências persistirão ? Quais nomes de peso da literatura "erudita" apoiam o cordel como faziam Graciliano Ramos, José Lins do Rego, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Franklin Távora, Manuel Bandeira, Antonio Callado, Alfredo Dias Gomes, entre outros?
     A cultura erudita e a cultura popular podem muito bem estar juntas, criar juntas. "A não ser - garante Carlos Rodrigues Brandão - que queiramos  trabalhar com essências puras, o que não é muito adequado aos casos do homem, da sociedade e da cultura. Podemos concluir que todas as relações são possíveis e estão sempre articulando-se: a cultura erudita produz partes (ideias, crenças, saberes, artes, tecnologias, artefatos) que se tornam populares, e se folclorizam. O popular que há alguns séculos antes teria sido fração de uma restrita cultura de intelectuais, de novo torna-se erudita, restrito, próprio às classes dominantes".
     Aos seguidores do cordel, acreditem, seus versos vão continuar cantando e encantando muitos leitores. Portanto, espera-se que seus autores sigam acreditando nesse gênero e possam produzir muitos e belos folhetos com abordagens e temas diversificados.    

     Notinha útil - Há dois dias, 24 de outubro de 2019, Manaus (AM), completou 350 anos de existência. Cada cidadão, jornalista, administrador, tem a sua percepção da cidade onde reside. A percepção do poeta Simão Pessoa, descrita no poema abaixo, publicado pela 1ª vez em 1981, é esta:

     DESUMANIZAÇÃO 
     Vivo numa cidade encalacrada/ Na perdição fatal do próprio ócio:/ Uma cidade onde se produzem/ Não proteínas, mas relógios./ Vivo numa cidade ensimesmada/ Sitiada na selva de seu tédio:/ Uma cidade onde a indiferença/ É de utilidade pública por decreto./ Vivo numa cidade malsinada/ Onde a eterna solidão não se resolve:/ Uma cidade onde as mulheres sonham/ Não com poemas, mas com revólveres./ E mais que vivo, sobrevivo,/ Fantasma alado no lodo,/ Mãos empoçadas na lama,/ Desfibrando, pouco a pouco,/ Coragem, revoltas, escamas" (4).

     "De lá para cá, não creio que tenha mudado muita coisa. De qualquer forma, feliz aniversário, Manaus!", garante o poeta. (4).


O famoso encontro do Rio Negro e do Rio Solimões
O imponente Teatro do Amazonas

      Notinha útil 2 - Ei você. É você mesmo. Que utilizou as próprias mãos para despejar, contaminar, destruir e matar o Nordeste com óleo. Saiba: se escapar da Justiça Brasileira, não escapará da justiça da Natureza. Aguarde o seu próprio fim.

     Pesquisa e texto por Francisco Gomes
     Arte por Winnie Barros

     Fontes
     1. Neto, Antonio Fausto. Cordel e a ideologia da punição. Vozes, RJ, 1979.
     2. Maxado, Franklin. O cordel televivo. Codecri, RJ, 1984.
     3. Meyer, Marlyse. Autores de cordel. Abril Cultural, SP, 1980.
     4. Pessoa, Simão. Manaus 337. Correio Amazonense, Manaus, 24 de outubro de 2006.

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