"A conquista da felicidade"

     Foi no início da década de 1990 que conheci o catedrático em matemática, o professor Rubem Bizerra (assim mesmo, com "i"). Oficial da Aeronáutica, da reserva; nordestino defensor de princípios pessoais e familiares severos; profissional exemplar. No magistério, trabalhamos juntos por quase 15 anos. Com o mestre aprendi muito para toda vida.
     Segundo ele, todo universitário que pretenda desvendar os mistérios da física e da matemática, deve dedicar-se muito ao estudo da filosofia. Assim o fez: leu os grandes pensadores ocidentais. Mas, não esconde seu preferência pelo filósofo inglês Bertrand Russell. 
     "Leia a 1ª obra desse autor e jamais deixará de ler as demais. Quando, um mesmo homem lapida os números e conjuga as palavras, ele é um gênio. Bertrand foi um gênio. Capaz de influenciar gerações durante o século XX. Século esse dominado por guerras, ditadores horrendos e ódios raciais", disse-me, certa vez, o professor, na biblioteca da escola onde lecionávamos. 
     A partir daquela "aula" saí à procura de Bertrand. Lia uma obra aqui outra ali. Cada uma mais interessante que a outra. E quando achava que havia lido todos os livros traduzidos para o Português, descobri, agora, A conquista da felicidade. 




     Bertrand Arthur William Russell nasceu no país de Gales em 18 de maio de 1872 e naquele país morreu em em fevereiro de 1970, aos 97 anos. Matemático, filósofo, escritor, líder pacifista. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1950. Esse conjunto de fazeres o tornou o mais importante pensador britânico do século passado.
     "Estudou matemática no Trinity College, da Universidade de Cambridge, e prosseguiu com os estudos de filosofia. Partiu para a Alemanha, onde estudou economia, e ao regressar foi professor da London School of Economics" (3).

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     Em 1916, é impedido de lecionar, sendo obrigado a se demitir devido à suas posições políticas e participação em movimentos pacifistas. Chegou a ser preso e a pagar multa. Retomou sua cátedra apenas em 1944, após ter viajado praticamente por todo mundo. Se por um lado defendeu o pacifismo e o antiautoritarismo. Por outro, combateu ferozmente "o regime totalitário soviético e isso o fez ficar isolado durante a 2ª Guerra Mundial por ser contra o nacionalismo exacerbado. Lutou contra a corrida armamentista e pela anistia de todos os presos políticos do mundo" (1).
     No livro Princípios Matemáticos, de 1910/13, Bertrand apresentou sua teoria das descrições. estudo iniciado em 1905, quando era jovem de apenas 23 anos. É dele, por exemplo, a tradução para a Lógica, os fundamentos matemáticos dos números reais.
     "Suas teorias de Lógica influenciaram fortemente os filósofos do chamado Círculo de Viena. A origem de suas ideias  está na filosofia analítica moderna. Propugnou por uma teoria ética que levasse em conta o potencial de subjetividade humana" (1).
     "Pacificador sempre". esse era seu objetivo  de vida e de pensador. Isso tem sentido. Apesar da idade avançada, nos últimos dias de vida, soube reunir forças para protestar com a participação dos Estados Unidos da América na guerra do Vietnã. Assim, como lutou com veemência contra a proliferação de armamentos atômicos. 
     "Dedicou-se a três grandes áreas de estudo, com a premissa subjacente de que a visão científica do mundo é certamente a visão correta: a teoria doo conhecimento, as relações entre lógica e matemática e, finalmente, entre lógica e linguagem" (2). 
     Suas principais obras: Introdução a filosofia da matemática (1919); Panorama científico (1931): Religião e ciência ( 1936); História da filosofia ocidental (1947), sua obra mais lida. Um best-seller no Novo Reino e nos EUA; Sociedade humana em ética e política (1955); Fato e ficção (1962).
     Porém, o belo do belo está na A conquista da felicidade, na qual o autor "buscou diagnosticar as inúmeras causas da infelicidade na vida moderna, traçando um caminho para escapar do mal-estar aparentemente inevitável que predomina mesmo em sociedades prósperas" (3). Apesar de desprovida de "perdições profundas", o que move a obra "é a convicção de que, com um pouco de esforço bem-orientado, é possível chegar à felicidade. Escrito originalmente em 1930, este pequeno livro permanece atual - e muito necessário" (3).
     A conquista da felicidade, é um daqueles manuais, cujo conteúdo  não sai mais da mente do leitor. Com tradução impecável de Luiz Guerra, está dividido em duas partes: 1ª - CAUSAS DA INFELICIDADE, como: competição, fadiga, inveja, mania de perseguição e a pergunta: O QUE TORNA AS PESSOAS INFELIZES? 2ª - CAUSAS DA FELICIDADE, como: entusiasmo, afeição, família, trabalho, interesses impessoais e a pergunta: A FELICIDADE AINDA É POSSÍVEL?
     O prefácio, assinado pelo próprio escritor, é um espetáculo à parte. Em apenas um parágrafo o autor deixa o leitor satisfeito sobre os questionamentos suscitados  no quesito felicidade. Tem  mais: para completar a beleza das palavras e "o segredo do seu significado", o filósofo cita outro gigante das letras. O poeta norte-americano Walt Whitman (1819-1892), com trechos de um poema que se encaixa no estudo desde com A conquista da felicidade. Leiamos, portanto, na íntegra:
   
"Este livro não é endereçado aos eruditos nem àqueles que julgam que um problema prático não passa de um tema de conversa. O leitor não encontrará nestas páginas nem filosofias nem erudição profundas. Pensei apenas em reunir alguns comentários inspirados, segundo acredito, pelo senso comum. O que apenas posso dizer em favor aos conselhos que ofereço ao leitor é que se acham confirmados, por minha própria experiência e observação, e que fizeram aumentar minha felicidade sempre que me conduzi de acordo com eles. Sendo assim, ouso esperar que, entre a multidão de homens e mulheres que sofrem, alguns encontrem aqui o diagnóstico de sua própria situação e sugestões eficientes para resolverem tais questões. Ao escrever este livro, parto da convicção de que muitas pessoas infelizes podem chegar a conquistar a felicidade, se fizerem um esforço bem-orientado".
      Para confortar o leitor (e encantá-lo ainda mais) entra Walt Whitman com estes versos:

      Creio que poderia transformar -me e viver com os animais. 
      Eles são tão calmos e donos de si,
      Detenho-me para contemplá-los sem parar.
      Não se atarantam nem se queixam da própria sorte,
      Não passam a noite em claro, remoendo suas culpas,
      Nem me aborrem falando de suas obrigações para com Deus.
      Nenhum deles se mostra insatisfeito, nenhum deles se acha
      dominado pela mania de possuir as coisas.
      Nem deles fica de joelhos diante de outro, nem diante da 
      recordação de outros da mesma espécie que viveram há milhares de anos.
      Nenhum deles é respeitável ou desgraçado em todo o amplo mundo".

      Leitor em todo o mundo, se você é feliz, "pergunte a si mesmo quantos de seus amigos também o são. E, após ter analisado seus amigos, aprenda a arte de ler fisionomias; torne-se receptivo aos estados de ânimo daqueles que encontra ao longo de um dia comum." 

        Estes versos são de Blake:
        A mark in every, face I meet,
       Marks of weakness, marks of woe*

      *Uma marca encontro em cada rosto
        Marcas de fragilidade, marcas de desgosto (N.E).
        
        Apesar das últimas palavras do pintor holandês Vicent van Gogh tenham sido "a tristeza durará para sempre", acredite: a felicidade sim, durará para sempre (a tristeza, o desgosto, o desânimo, não). É bíblico: "a vida se renova a cada manhã".
          Em 1959, Bertrand Russell, aos 60 anos, participa de uma entrevista à BBC, na qual ele dá dois conselhos às futuras gerações. Confiram o vídeo a seguir:



OBS: tudo isso explica a paixão filosófica do octogenário professor Rubem por Russell.

     
Pequisa e texto por Francisco e Angeline Gomes
Arte por Winnie Barros
Fontes
1. DBU-Dic. Biog. Universal Três-SP: Três Livros e Fascículos, vol. 10, 1983, pp.96/97.
2. Nova Barsa, RJ/SP, 1999, vol. 13, p. 4.
3. Russell, Bertrand, A conquista da felicidade: trad. Luiz Guerra - [5.ed] - RJ: N. Fronteira, 2017.
4. Imagem de Bertrand Russell: Wikipédia

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