"As hienas", de Accioly Neto

     Você já ouviu falar de José Accioly Cavalcante Neto? Ainda não? Pois, saiba agora, que foi um cantor e compositor pernambucano brilhante. Nasceu em 11 de julho de 1950, no Município metropolitano (norte) de Goiana, de 80 mil habitantes (dados atuais), distante apenas 62 quilômetros da capital Recife, onde faleceu em 29 de outubro de 2000, aos 50 anos, vítima de aneurisma cerebral.
     Seu interesse pela música surgiu quando ainda era criança, "observando os seresteiros amigos das irmãs mais velhas". Quando, então começou a tocar violão. A princípio, sem a anuência do pai. Com essa determinação chegou à juventude. Aos 25 anos já era vocalista de banda musical na cidade do Rio de Janeiro. Nessa época, ou seja, meados dos anos 70, passou a participar de festivais de canções, chegando a se classificar, num deles, em segundo lugar. 
     Em 1986, lança o LP "Trancelim", quando passa a cantar forró, cuja medida foi acertada e logo cai no gosto popular. Começa da fazer shows com frequência. Em Recife, por exemplo, na Casa Cavalo Dourado, Casa de Festejos entre outras. E também em cidades do interior pernambucano como Palmares, Bezerros, Surubim, e ainda, em Estados vizinhos.

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     Já havia passado por uma ou duas gravadoras, até chegar a BMG Ariola, a qual representava importantes artistas da MPB, onde lançou "Viva a Lambada". Gênero de grande sucesso naquele momento em todo o Brasil. "Mas, em 1991, sofreu um grave acidente de carro na Rodovia BR 101 Sul, na altura de Palmares (PE), vindo de um trabalho de divulgação em Maceió. Com algumas sequelas o artista passou por um período muito difícil, que o deixou basta deprimido. Mas com o auxílio de sua fé e o apoio da mulher (Tereza) e da filha Talitha, conseguiu superar e aproveitar o tempo para compor, principalmente forró" (1).
     Com o avanço tecnológico e a aceitação do grande público mundial do CD, Accioly resolveu voltar aos estúdios e lançou, como produção independente, em 1995, "Lembrança de um beijo", cuja canção homônima foi regravada por muitos outros artistas. Esse projeto foi um sucesso. Em 1998, grava outro CD, com composições conhecidas e inéditas. 
      "Em maio de 2000, realiza seu último show no Forró Classe A, no Recife, com a casa lotada e muitos aplausos, o que lhe provocou grande emoção. Ainda gravou um CD, o resumo de sua, "Meu Forró", o qual foi lançado postumamente. Nesse trabalho está a música Espumas ao Vento, um dos seus maiores sucessos, incluído em 2003, na trilha sonora do filme "Lisbela e o Prisioneiro" (1).
     A preocupação desse grande artista com os problemas sociais, que ocorrem no Nordeste ou fora dele é uma constante em seus versos. Um exemplo ocorre em 1980, meses após o estrondoso sucesso nacional de Porto Solidão, de Zeca Bahia e Gincko, interpretada por Jessé (1952-1993), no Festival MPB 80, a gravadora RGE lança o LP "Jéssé" com 12 músicas. Um trabalho primoroso. Nele estão, além de Porto Solidão, é óbvio, canções inesquecíveis como Voa Liberdade, de Mário Maranhão, Eunice Barbosa e Mário Marcos; Campo minado, de Mário Maranhão, Mário Marcos e Maxciliano; Palavra de honra, de Accioly Neto, entre outras.
     Letra e melodia de Palavra de Honra, são impecáveis. A interpretação e arranjos, idem. Vamos à leitura dos seus versos:

     Palavras que eu não sei o que fazer
     Com essas coisas dentro do meu peito
     Rancores, desamores do passado
     Aproveitam meu estado
     E tua vaga no meu leito
            São grandes invisíveis inimigos
            Que habitam nosso quarto sem ruídos
            Me tornam presa fácil do perigo
            Juventude se esvaindo
            Em cada frase que eu digo
                    Palavra que eu não sei como evitar
                    Dizer coisas amargas pra idade
                    Dobrada que me foi pela desdita 
                    De uma eterna mente aflita
                    A querer felicidade*

     Porém, a grande arrancada do compositor, na voz do mesmo magnífico Jessé, veio em 1982, com a contundente Paraíso das hienas. Essa música passou despercebida pelas rádios em todo país, salve algumas exceções. Até porque o carro-chefe desse disco foi Solidão de amigos (assistam ao vídeo), Mário Maranhão e Eunice Barbosa.


      Tem mais. O acadêmico de Psicologia da UPE-FACETEG de Garanhuns (PE), Pedro Terceiro, fez uma "Reflexão sobre a música Paraíso das hienas", para a disciplina Cidadania e Realidade Brasileira, e concluiu o seguinte:
     "Quem são as hienas a que o autor da música se refere? Certamente o povo brasileiro. Naquele tempo em que o autor escreveu a poesia, as gentes estavam sob profunda despersonalização de sua cidadania, de seus direitos constitucionais cassados pelo mandato dos militares interventores (1964-1985), quais escreveram uma história de atraso, opressão e muito sangue derramado em nome da "ordem" e do "progresso" (2).
     Seguindo esse mesmo raciocínio, os educadores do Paraná, após análise da referida canção dizem:
     "Accioly Neto escreveu essa canção e Jessé a gravou em 1981 (o LP foi lançado em 82). Na letra dessa música encontramos inconformismo e indignação com a situação social brasileira, principalmente quanto à questão da alienação de grande parte da população. Percebemos a angústia de que procura alertar sobre a necessidade de deixar de lado a aparência e buscar a essência da realidade que nos cerca" (3).
     Vamos leitor, vamos conferir essas observações, ou melhor, reflexões, lendo (e se pudermos ouvindo) a própria composição, na íntegra: PARAÍSO DAS HIENAS


     Abençoai as hienas
     Principalmente as morenas
     Tricampeãs mundiais
     Pois desse lado do muro
     O jogo é tão duro meu pai
     Que só ter  piedade de nós 
     Não vale a pena
     Oração não voga  quando não há vaga
     Coração não roga  quando só há raiva 
     E a roupa do corpo
     Três  vezes  ao  dia
     Novena  não  paga 
     Ao homem da venda
     Não   adianta   nada
     Não  enche  barriga 
     Subir de joelhos
     As escadarias
     Abençoai as hienas
     Principalmente as "Da Silva"
     Campeãs  de  carnavais
     Pois desse lado do beco
     O olhar é tão seco meu pai
     Que só ter piedade de nós não vale a pena

    Por favor, "nós vos pedimos com insistência ", só para repetir o velho Brecht, não deixemos que as questões sociais que muitas vezes "são grandes invisíveis inimigos", nos sejam ignoradas e continuem nos alienando de Norte a Sul. "Sem letras", como dizia o saudoso Tancredo Neves, seremos eternamente  ( "eterna mente") ignorantes e "presa fácil do perigo" em todos os aspectos. Sem "a roupa do corpo/três vezes ao dia", ou seja, sem comida, não há como pensar adequadamente. E sem pensar, seremos uma Nação de esquálidos. Não queremos isso. Vamos nos livrar das hienas morenas, das hienas "Da Silva", das hienas pálidas. Viva a Ciência!
    
     Notinha útil - O Facetas descobriu que, apesar dos seus compromissos familiar e profissional, o senhor Luciano Nascimento dos Santos, de Manaus (AM), não perde a nossa série de artigos. Portanto, vai para ele as nossas homenagens desta semana.

     Pesquisa e artigo por Francisco Gomes
     Arte por Winnie Barros

Fontes
1. www.letras.com.br
2. www. yumpu.com - "Reflexão sobre a música paraíso das hienas"
3. Os desafios da escola pública paranaense na perspectivas do professor  PDE (Produções didática- pedagógicas), 2013. 
4. LPs "Jessé", Gravadora RGE, São Paulo, 1980 e 1982, respectivamente.
* Letras rigorosamente como estão nas contracapas  dos discos citados.
5. Imagem do site Forró em Vinil
6. Vídeo Solidão do Amigos, canal do Youtube Estação Parayba
7. Vídeo Paraíso das Hienas, canal do Youtube Raridade Musical

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