Roberto Silva: "O Príncipe do Samba"

     Você sabe quem foi Roberto Napoleão Silva? Foi um cantor e compositor carioca, nascido no no Morro do Cantagalo a 9 de abril de 1920 e falecido na cidade do Rio de Janeiro a 9 de setembro de 2012. Seu interesse pela música surgiu na infância, quando frequentava festinhas na vizinhança. Época em que passou a ir aos programas de auditório.
     Aos 18 anos estreou no programa "Canta Mocidade", da Rádio Guanabara, onde ficou de 1938 a 1940. Em 1943 foi fazer um teste na Rádio Mauá, ficando lá até 1946. Participou de vários programas, abrindo assim, portas para sua carreira artística. Chegou, então à Rádio Nacional, levado por Evaldo Rui e Heraldo Barbosa, onde permaneceu por um ano. Nessa época foi batizado de "O príncipe do samba" pelo locutor oficial da Rádio Tupi, Carlos José.
     Em 1947, foi contratado pela gravadora Star e não mais parou de gravar e cantar por mais de  70 anos, até falecer aos 92. Sua biografia é rica assim como a sua discografia. Sempre cercado por familiares, amigos e músicos. Repertório invejável: de Noel Rosa a Zeca Pagodinho; de Ary Barroso a Caetano Veloso, Sempre lúcido e dono de uma voz impecável. Por sinal, elogiado por artistas, produtores e ouvintes.
     "O cantor carioca Roberto Silva, conhecido no meio musical como o "Príncipe do Samba", morreu na madrugada desde domingo, às 3h30m. Diagnosticado há seis meses com um câncer na próstata, sambista de 92 anos teve um AVC na quarta-feira e foi levado ao hospital, onde foi constatado que alguns órgãos pararam de funcionar. Lúcido, Silva pediu para ser levado para casa e chamou seus familiares" (1)
     Assim continua aquele matutino: "Foram quase 75 anos dedicados à músicas. Nascido em Copacabana, mas criado em Inhaúma, ele começou a cantar anda garoto e se destacou pela voz grave e pelo estilo inspirado inicialmente em Orlando Silva. Sua interpretação, que destacava pelo sincopado, logou chamou atenção no seu primeiro sucesso, Mandei fazer um patuá (R. Olavo N.Martins)" (1).
     Certa vez, o próprio artista- de forma comedida e modesta -, disse sobre si: "Fui abençoado por uma voz que me permite cantar de tudo, canções, valsas, baiões e até boleros, mas é com o samba que mais me identifico" (1). Revelou ainda que todas as manhãs, fazia exercícios vocais por 20 minutos para manter o seu mais importante instrumento de trabalho em forma: a voz. 
    Tornou-se tão importante para a música, que tinha como fãs declarados: João Gilberto, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Caetano Veloso, entre outros. Silva emplacou vários sucessos com notáveis canções com sua interpretação singular: Maria Thereza, Escurinho, Notícia, Juracy, etc.
    Por falar no cantor Caetano e na canção Juracy, quando da gravação do CD/DVD "Casa do Samba", em 2012, quase sete meses antes da morte do sambista, o carioca e baiano, gravaram essa música ( vídeo disponível no YouTube, de 18.02.12). Pense num dueto espetacular. 
     "Cantar com Roberto Silva é inacreditável!", exclama o baiano. E completa: Ele foi "um dos melhores cantores que o Brasil já teve". Mas, isso veio da dedicação do cantor ao longo da carreira. O qual fez da sua voz ecoar a melodia que enche os corações dos seus admiradores. Tudo justifica a frase: "O SAMBA ERA A SUA NOBREZA" (2).
     Roberto já era conhecido nas rodas de samba, quando em 1958, a gravadora Copacabana teve a brilhante iniciativa em lançar o LP "Descendo o Morro". O sucesso foi tão grande, que ganhou continuações, ou seja, vieram os volumes 2, 3 e 4. São discos raros de serem adquiridos.
     Há alguns meses o Facetas conseguiu os números 2, 3 e 4. Na contracapa do disco 2, por exemplo, o jornalista carioca e crítico de música Lúcio Rangel (1914-1979), faz este comentário:
"Eis um cantor que, felizmente, canta à velha e autêntica maneira; ele não prende a voz, não canta "pra dentro", não sussurra. É Roberto Silva. Quando do lançamento do primeiro "DESCENDO O MORRO", tive a oportunidade de salientar as qualidades marcantes do cantor, sua voz fonogênica, sua naturalidade em dizer os versos muitas vezes ingênuos, mas saborosos, que o sambista carioca fez para matar as mágoas, para homenagear a sua amada, para glosar um fato ou caricaturar uma situação. Reunindo alguns dos melhores sambas do passado, em sua maioria os da década de 30, o disco de Roberto Silva, foi um grande sucesso artístico, um enorme êxito popular. Agora volta a cantar com nova coleção de sambas, todos autênticos, daqueles que têm "teleco-teco", buliçosos, vivos, transmitindo entusiasmo ao ouvinte com seu ritmo cem por cento brasileiro".


     O  "Descendo o Morro 2" tem um repertório tão bom como o nº 1. Aliás, pode ser aceito como um complemento indispensável daquele e feito com o mesmo capricho. Com o mesmo esmero, ou seja, uma continuação cronológica, contendo os mais modernos sambas, mas, com a mesma autenticidade. "Uma verdadeira antologia".
     No 2, estão "os verdadeiros ases da nossa música popular, os sambistas autênticos e inspiradores", como Geraldo Pereira com Escurinho; Wilson Batista e Cyro de Souza, A mulher que eu gosto; Waldemar de Abreu, o "Dunga", com Chora, cavaquinho, considerado uma de suas obras-primas; o gaúcho com alma de carioca, Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, com Se acaso você chegasse; o instrumentista consagrado Altamiro Carrilho, com Maria Thereza, etc. 
     Rangel era um musicólogo muito rigoroso nas suas análises. Tudo era feito com muita veemência. No final dos anos 50 e início dos anos 60, surgia um novo ritmo na música brasileira e logo conquistou muitos adeptos por aqui e seguiu para para países: a bossa nova. Aqui ele aproveita o ensejo para alfinetar os de lá, ou seja, os defensores do novo ritmo:
    "Houve tempo em que os cantores de vozeirão eram os intérpretes do samba, cantores evidentemente inspirados nos tenores e barítonos do Municipal; cantavam o nosso samba sem nenhuma vivacidade, com pouco ritmo e sem aquela qualidade indefinível que se chama "bossa". Roberto Silva está longe de lembrar tal gente; nele tudo é graça e espontaneidade, tem o sentido do ritmo aguçado, "sento" o que canta, como o povo gosta de ouvir, com malícia, cariocamente." 
     Tanto o 1º como o 2º não foram gravados rodeado e apoiado por excelentes instrumentistas. O cantor "está inteiramente à vontade, cantando o samba com naturalidade, valorizando os números tão bem escolhidos e dando ao ouvinte a oportunidade de verificar como é divertido, como é gostoso o samba verdadeiro, o samba malicioso  e cheio de graça, o samba carioca", completa Rangel.
     No disco 3, de 1960, contendo 9 sambas, 1 choro estilizado, 1 samba-canção e 1 samba-boogie, o citado crítico faz uma avaliação mais histórica: de Noel, com Palpite Infeliz a Ataulfo, com Errei...Erramos. Sem, no entanto, deixar de citar Curare (choro estilizado), de Bororó, como era conhecido do grande público, o notável Alberto de \Castro Simoens (assim mesmo) da Silva descendente da Marquesa de Santos, entre outros. Autores de belos, felizes e verdadeiros sambas.


     Ainda, segundo Rangel, "desde 1917, quando apareceu o primeiro samba gravado, o famoso "Pelo Telefone", algumas centenas , alguns milhares de outros sambas percorreram o Brasil através dos discos fonográficos". Alguns sem sucesso; outros, obtiveram sucesso passageiro e depois foram esquecidos. "Em uma terceira categoria, dos raros, estão os sambas que parecem resistir ao tempo, sempre lembrados, morando na lembrança e na saudade de toda gente: são os "diamantes", os "joias", as obras-primas, realizadas em um momento de inspiração sobre o motivo feliz e impecável. São os que ficam". Constata o grande crítico.
     Portanto, as canções (são quase 50) da série "Descendo o Morro", hão de persistir no tempo. "E o público que raramente se engana, soube prestigiar e aplaudir a iniciativa com as melhores produções do samba carioca, na interpretação desse homem irônico e sentimental, malicioso e às vezes ingênuo", estão, sempre, na mente do seguidor do samba, conclui Lúcio.
     No nº 4, de 1961, quem comenta é o jornalista, compositor e desenhista carioca Sérgio Malta, nascido em 1933 (hoje com 86 de idade), o qual classifica Roberto Silva como um "ótimo cantor", e completa: Ele "tem a bossa, a malícia, a graça e o "balanço" que o verdadeiro samba exige. É um autêntico sambista. A BOSSA é nossa!... E de Roberto Silva"
     Aos nossos estimáveis leitores, principalmente àqueles que não conheciam este grande profissional da nossa música, do nosso genuíno samba como um todo, apresentamos aqui um pouquinho do seu legado artístico acima, e finalizamos com a paródia de Juracy. Alguns versos, apenas, e o vídeo de Roberto Silva com Caetano Veloso cantando a música Juracy:

                                 Desde que  conheci o samba de Roberto
                                 Nunca mais tive  tristeza; fiquei esperto
                                 Meu  coração ficou daquele jeito
                                 Palpitando  dentro do  meu peito.


     VIVA O SAMBA!


Notinha útil -  1. No próximo dia 15, data da Proclamação República, não leia muita coisa para entender a  república dos bananas. Leia apenas "1889", do consagrado pesquisador Laurentino Gomes. Agindo assim, você terá convicção que esta republiqueta (com esse formato, esse esqueleto de 130) não chegará a lugar nenhum no futuro; 2. Depois dos últimos e fatídicos acontecimentos abaixo da Linha do Equador, nada melhor do que recitar 100 vezes "Quadrilha", não apenas no sentido poético, mas em todas as definições possíveis do termo, preferencialmente no plural, de Drummond: "João amava Teresa que amava Raimundo/ que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/que não amava ninguém./ João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento./ Raimundo morreu de desastre. Maria ficou para a tia,/ Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes/que não tinha entrado na história".

     Pesquisa e texto de Francisco Gomes
     Arte de Winnie Barros 

     Fontes
     1. oglobo.globo.com
     2.dicionariompb.com.br
     3. "Descendo o Morro", discos 2, 3 e 4, de 1959,1960 e 1961, respectivamente, Copacabana, SP
     4. Imagens: acervo pessoal.

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