"Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira"

     "Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado: Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o Poder, perdem o Poder, reconquistam o Poder, trocam o Poder... O Poder não sai duns certos grupos, como uma pela (bola) que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.
      Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no Poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os outros que lá não estão - os corruptos, os esbanjadores da Fazenda, a ruína do País!
     Os outros, os que estão no Poder, são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais - os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do país.
      Mas, coisa notável! -  Os cinco que estão no Poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da Fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E os que não estão no Poder movem-se, conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem - os verdadeiros liberais, e os interesses do País!
    Até que enfim caem os cinco do Poder, e os outros, os verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da Fazenda e ruína do País; em tanto que os que caíram do Poder se resignam, cheios de fel e de tédio - a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.
     Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha sido por seu turno esbanjador da Fazenda e ruína do País...
     Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou obrigado a pedir a demissão, pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis...
      Não  há nenhum  que não tenha sido julgado incapaz de dirigir as coisas públicas -pela imprensa, pela palavra dos oradores, pelas recriminações da opinião, pela afirmativa constitucional do poder moderador... 
     E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão dirigindo o País, neste caminho em que ele vai, feliz, abundante, rico, forte, coroado  de rosas, e num chouto (trote miúdo) tão triunfante!" (1)

     Aos nossos admiráveis leitores, cabe salientar que o fragmento acima foi extraído da crônica IX, da obra Uma campanha feliz do escritor português Eça de Queirós, de junho de 1871, quando o autor ainda era um jovem de apenas 26 anos. O texto chegou ao conhecimento do Facetas pela professora estadual (AM) de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, Célia Regina Corrêa Frazão, a qual, observou que, apesar de passados 148 anos da publicação original, a narrativa de Eça corresponde à atual realidade política partidária do Brasil, sem meras coincidências.
     José Maria Eça de Queirós, nasceu em Póvoa de Varzim, Portugal em 25 de novembro de 1845 e morreu em 16 de agosto de 1900, aos 54 anos, vítima de enterocolite, um mal hereditário que o perseguia desde a juventude, na França.
 
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     Escritor, diplomata e jornalista, passou seus últimos anos de vida como um "pequeno-burguês retirado" que "misturava" literatura e jornalismo. Por isso, vivia "exilado em sua torre diplomática", segundo ele próprio. Era um demolidor dos vícios burgueses, com a "disciplina intelectual, econômica, moral e doméstica". "A irreverência social e sarcasmo, que o acompanhavam ideologicamente como escritor e cidadão, colidem, no entanto, com as atividades da diplomacia e sua vida burguesa" (2).
     Escreveu vários livros. Alguns deles são bem conhecidos do público, tanto em Portugal quanto no Brasil, até hoje, como Os Maias (1888), O Crime do Padre Amaro (1876), O Primo Basílio (1878), A Relíquia (1887), A Ilustre Casa de Ramires (1900), entre outros.
     Na mesma época de Eça, referente "a intelectualidade portuguesa e a situação social do regime político liberal", mas no Brasil, é óbvio, na Capital do Rio de Janeiro, o teatrólogo, escritor e jornalista maranhense - radicado no Rio - Artur Azevedo (1855-1908), irmão de Aluísio de Azevedo (1857-1913), autor do clássico o O Cortiço, fazia duras críticas ao Poder político do país.
     Artur sempre conciliou o jornalismo com emprego público. Por exemplo, no ano de sua morte, aos 53, havia sido promovido para o cargo de diretor-geral do Ministério da Viação, em substituição ao seu amigo e escritor, o carioca Machado de Assis.  
     Azevedo foi autor de várias peças de teatro. Mas, também escreveu livros de poesia e de contos. Por sinal, seus contos são espetaculares. Como ninguém, ele retratava a "desordem" da política partidária brasileira, a começar pelo centro administrativo do poder: a Capital.
     O 1º volume de seus Contos Impossíveis  data de 1889, momento efervescente da implantação da República no Brasil, onde via-se de tudo: os dúbios políticos;  os oportunistas; os liberais; os conservadores; e os partidos obscuros, etc. Menos corruptos. Isso, não.
     Em Pobres Liberais!, ele narra  as ações do "notável político Dr. Francelino Lopes", como "o ilustre delegado do gabinete imperial", o qual faria uma visita às principais localidades da província. Assim o fez. Onde chegava era aclamado pelo povo na presença de "todas as autoridades" e correligionários do governo e muitos discursos.
      À noite, mesa farta, baile. O Dr. comeu "como se fosse estômago de um simples mortal". E apesar de ainda não ter 40 anos, e ser presidente e dono de muita disposição, lá pelas tantas, a festa foi interrompida. O visitante estava fadigado pela viagem e fora conduzido aos reservados aposentos em casa do barão local, na mesma praça onde se achava o Edifício da Câmara.
      Apesar de ser o melhor local da cidade e os 3 compartimentos luxuosamente mobiliados e o leito era magnífico, o Juiz, o Delegado de Polícia, o vigário, e, os próprios donos da casa, pediam desculpas "a S.Exa" por não terem algo melhor para acomoda-lo e deixaram o local. O último a sair foi o dono e redator do jornal do partido conservador, d'A Opinião Pública.
      Deixando com o presidente provincial um exemplar do dia, cujo número trazia "a biografia e o retrato daquela" autoridade. O Dr. agradeceu, fechou a porta e soltou logo suspiro de alívio. À vontade, abriu o jornal "disposto a ler a sua biografia antes de apagar a vela". Porém, só teve tempo de examinar o seu retrato xilografado no matinal.
      "S.Exa." fora acometido por dolorosa contração no ventre, "sentido a necessidade imperiosa de praticar certo ato fisiológico de que nenhum indivíduo se pode eximir, nem mesmo sendo presidente da Província" (3). Logo passou a procurar o receptáculo em todos os cantos: nada! Ninguém, entre os organizadores da recepção do ilustre hóspede se lembrara que aquele era um homem como os demais homens.
      O Dr. Francelino quis pedir ajuda, "mas esbarrou num preconceito ridículo da nossa educação, envergonhou-se de confessar o que lhe parecia uma fraqueza e era, aliás, a coisa mais natural do mundo; receou perder sua linha de primeira autoridade da Província, desabar do pedestal de semideus aonde o guindaram durante a festa da recepção" (3). Se soubessem... o que diriam dele?
       "Entretanto, o momento era crítico. O delegado do governo imperial começou a suar frio... Olhou para A Opinião Pública, o jornal do bacharel Pinheiro, e o substituiu pelo receptáculo ausente. Logo após, cautelosamente abriu uma janela e viu que a praça estava deserta e silenciosa, atirando para lá A Opinião Pública, cuidadosamente, sem, no entanto, ter lido a sua biografia.
     "Pouco depois dormia o sono do justo, que tem igualmente desembaraçado o ventre e a consciência".
      Pela manhã, ao despertar, ouvia muito barulho vindo da praça. Estranha vozeria, frases de indignação, como:
        - É uma infâmia!
        - Que pouca vergonha!
        - A vingança será terrível! Etc.
        O presidente não teve dúvida: "tratava-se de um perturbação da ordem pública. Abriu a janela e foi recebida por uma estrondosa ovação por mais de 500 pessoas.
        - Viva o Sr. Presidente da Província.
      O jornalista local, ao lado do presidente, diz que os habitantes estavam ali por serem "admiradores das altas virtudes e dos talentos de V. Exa". Mas, ao chegarem à praça "foram surpreendidos pelo espetáculo de uma injúria ignóbil cometido contra aquela autoridade e contra a imprensa livre. Logo debaixo da janela do ilustre hóspede.
          O bacharel Pinheiro aumenta o tom e vocifera para a turba lá embaixo:
          "- Veja a que destinos pode levar nesta cidade o ódio político e de que são capazes os liberais!".
        "- Sim, foram os liberais! Só essa gente imunda poderia encher de imundícies a respeitável efígie e a biografia de V. Exa.!", exclamam os reunidos.
          E o jornalista, o mais indignado de todos, garante:  
          "- Mas fique certo, excelentíssimo, de que, se foi grande a ofensa, maior será o desagravo!
          O presidente, atento a tudo, resolveu falar:
         "Meus senhores o acaso tem mistérios impenetráveis... tudo pode ser obra do acaso, e não dos liberais. Pobres liberais! Todavia, se ofensa houve, foi uma ofensa anônima, tudo quanto pode haver de mais anônimo... E as ofensas anônimas desprezam-se! Viva sua majestade o imperador! Viva a religião do Estado! Viva a constituição do Império!".
          E a charanga executo o hino.

          Passados 150 anos dos dois fatos narrados, tanto lá em Portugal, como aqui no Brasil, o balaio político é o mesmo: pobres republicanos! Pobres liberais! Pobre sociais-democratas! Pobres presidencialistas! Pobres populações!
          Os séculos passam e a gente insiste em não mudar para melhor (em todos os aspectos). "Lá vem o Brasil descendo a ladeira". Calma, leitor, trata-se música-título do LP do cantor baiano, Moraes Moreira, lançado em 1979. Qualquer semelhança com a nossa realidade, não é apenas uma coincidência.
                  (...)
            Descendo a ladeira
            Na bola, no samba
            Na sola, no salto
            Lá vem o Brasil.

Pesquisa e texto: Franciso Gomes
Formatação e arte: Winnie Barros
     
      Fontes
      1. Ser Protagonista: português: revisão: Ensino Médio - vol. único, Editora SM, 1a ed., SP, 2014.
      2. Eça de Queirós, Literatura Comentada, Abril, SP, 1980.
      3. Contos, Artur Azevedo, col. Obras Imortais da Nossa Literatura, ed. 3, RJ, 1973.
      4. LP de Moraes Moreira. "Lá vem o Brasil Descendo a Ladeira", Gravadora Som Livre, 1979.
      5. Imagem de Eça de Queirós no site Todo Estudo.

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