"Vossos filhos não são vossos filhos"

     Há 40 anos, a cada dois dias por semana, o temido professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, Alberto Girardi, já entrava na sala de aula quase aos gritos. Era seu jeito de chamar a atenção da turma para o "despertar da prosa e do verso". Ele citava, recitava, declamava e, até cantarolava poetas, escritores, cronistas, ensaístas como Manuel Bandeira, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Vinicius de Mores, Cecília Meireles, Ferreira Gullar, entre tantos outros.
     Certa noite já chegou à aula lendo: "Essa negra Fulô!/Essa negra Fulô!". Parou por aí e logo foi questionando: "Sabem quem foi Jorge de Lima? E prosseguindo, respondeu mais ou menos isto: "Foi um dos nossos país. Somos filhos de Gandhi, de Bilac, de Gibran, de Drummond, de Quintana, de Camões, enfim, somos filhos da poesia universal. Mas, não do governo que aí está (referindo-se do regime militar que perdurou no Brasil de 64-85).
     Os anos se foram, as décadas também, os colegas de classe, de ginásio, como um todo, seguiram suas vidas (um deles pode ser citado aqui com muita honra: Antonio Carlos Lacerda de Souza, estudante brilhante. Detentor de uma inteligência acima da média, cujo amizade atravessou o tempo e é mantida até hoje, na terceira idade). Estas lembranças são de 1979, ocorridas em Lábrea (AM). Porém, fiquei com um nome na mente: "Gibran". Em 2013, portanto, adquiri e li o pequeno grande livro: "O profeta", de Gibran Kahlil Gibran, citado pelo mestre Girardi.

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     Esse ensaísta, poeta e pintor nasceu em 6 de janeiro de l883, em Bicharde, no Líbano e morreu em Nova York em 10 de abril de 1931, aos 48 anos. Aos dois anos de idade, migrou com a família para os EUA, indo morar na comunidade libanesa de Boston, Massachusetts. Aí foi influenciado pela arte de vanguarda, principalmente pelas artes plásticas. Aos 15 anos voltou ao Líbano para estudar numa instituição maronita em Beirute, onde começou a escrever poemas. Em 1902, retorna a Boston, onde, dois anos depois, fez sua primeira exposição de pinturas. 
     Esse autor escreveu tanto em árabe quanto em inglês, conciliando sempre sua cultura de origem com a do país que o acolheu até o fim de sua vida. Seus principais trabalhos em árabe são Ninfas do vale (1910), Uma lágrima e um sorriso (1914), As tempestades, As procissões e O louco (1923); em inglês, destacam-se Sand and Foam (1926; Areia e espuma) e Jesus, the Son of Man (1928; Jesus o filho do homem). Esse último trabalho, foi lançado em 1938, após a morte do escritor. No entanto, a sua obra mais conhecida é O profeta.
     Esse livro, O profeta, está composto por 26 ensaios poéticos e seu autor conseguiu alcançar "o raro fenômeno de um filósofo místico que também foi um poeta". Suas páginas às vezes se aproximam das mensagens budistas, em outras sua lírica lembra os profetas hebraicos, ao mesmo tempo, fala para o homem de hoje. Gibran não oferece soluções fáceis para os problemas da vida. O que ele ensina é a prestar atenção em si mesmo e ali escolher as respostas. 
     A principal personagem do livro é Al-Mustafa, "o eleito e bem amado, após doze anos de espera retorna à ilha onde nascera. Antes de partir, o povo da terra em que viveu todo esse tempo pede que ele deixe ali um pouco de sua sabedoria. O profeta fala àqueles que nuca mais verá, sobre a natureza humana  e suas diversas faces: o amor, o trabalho, a liberdade, a dor, o autoconhecimento, o bem e o mal (entre outros temas). Nesse momento se despede, por fim Al-Mustafa entra em contato verdadeiro com aqueles que o acolheram. "Como pode alguém estar realmente próximo se não estiver distante?'", pergunta.
     Gibran foi realmente um caso raro no universo das letras e que soube  expressar com muita galhardia sua sabedoria. Ou melhor, a sabedoria "de um filósofo místico que também foi  um poeta", cuja obra literária é "acentuadamente romântica e influenciada pela Bíblia, Nietzsche e William Blake que trata temas como o amor, a morte e a natureza" (3), etc que compõem O Profeta.
     Completando, o próprio autor diz: "E assim como cada um de vós está isolado na consciência de Deus, cada um deve vivenciar seu conhecimento de Deus e ter sua compreensão do mundo", por exemplo: Das LEIS: Um magistrado chega ao profeta e o indaga: "E que dizes a respeito de nossas Leis, mestre?" A resposta vem de imediato: "Vós apreciais estabelecer leis, contudo, vos deliciais em violá-las"; da BELEZA: Um poeta quis saber a opinião do mestre sobre o tema e ele disse: "Onde devereis buscar a beleza, e como sabereis encontrá-la se não for ela própria  vosso caminho e vosso guia?", ou ainda, do LIVRO: "Um livro é como uma janela. Quem não o lê, é como alguém que ficou distante da janela e só pode ver uma pequena parte da paisagem".
     Como o tema deste artigo versa sobre filhos e é, um assunto universalmente palpitante, o poeta inseriu esse quesito em seus estudos com o seguinte posicionamento, ao responder uma mãe que estava com um bebê no colo, diante do profeta: "Fala-nos de filhos": 
      "Vossos filhos não são vossos filhos.
       São os filhos e as filhas da aspiração divina pela vida. Vêm por vosso intermédio, mas não de  
       vós:
       E embora estejam convosco , não vos pertencem.
       Podeis conceder-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos;
       Pois têm seus próprios.
       Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; 
       Pois elas abrigam-se no amanhã, que não podeis visitar nem mesmo com sonho.
       Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis torná-los iguais a vós; 
       Pois a vida não segue para trás nem retarda-se com o ontem.
       Sois os arcos com os quais vossos filhos são lançados qual setas vivas."

     Nessa mesma vertente, outro construtor das belas palavras poéticas, o versátil Vinicius de Moraes (1913-1980), era um estudante de 18 anos, quando morreu Gibran, em 1931. Como o jovem lia muito, é possível que tenha  analisado o "poeta místico", para, anos depois, publicar POEMA ENJOADINHO, cujos versos são os seguintes:
   
     Filhos...Filhos?                        Que morenaço                   Melhor não tê-los...                               
     Melhor não tê-los.                   Que a esposa fica!             Mas se não os temos
     Mas se não os temos                Resultado: filho.               Como sabê-lo?        
     Como sabê-los?                        E então começa                 Como saber
     Se não os temos                       A aporrinhação:                Que moleza
     Que de consulta                       Cocô está branco              Nos seus cabelos
     Quanto silêncio                        Cocô está preto                 Que cheio morno
     Como os queremos!                 Bebe amoníaco                 Na sua carne
     Banho de mar                           Comeu botão                    Que gosto doce
     Diz que é um porrete...            Filhos? Filhos                   Na sua boca!
     Cônjuge voa                             Melhor não tê-los              Chupam gilete
     Transpõe o espaço                   Noites de insônia               Bebem xampu      
     Engole água                              Cãs prematuras               Ateiam fogo        
     Fica salgada                              Prantos convulsos            No quarteirão
     Se iodifica                                 Meu Deus, salvai-o!          Porém, que coisa
     Depois, que boa                        Filhos são o demo             Que coisa louca
                                                                                                   Que coisa linda
                                                                                                   Que os filhos são!*

Quer emocionar-se? Então veja este vídeo com declamação do grande e saudoso ator Paulo Autran (1922-2007), sobre POEMA ENJOADINHO.



* poema rigorosamente como está editado no livro.
     
     Assim sendo, senhores, cuidem bem dos vossos filhos, que não são vossos filhos, mas filhos da aspiração divina. Louvai-os, no sentido de amar, criar, abrigar, etucar, etc. Depois... depois deixai-os  seguir seu amanhã, sua vida.

                                            "O amor não possui nen quer ser possuído;
                                              Pois o amor ao amor se basta". Gibran

    
     Pesquisa e texto por Francisco Gomes
     Arte e vídeo por Winnie Barros

     Fontes
     1. Gibran, Kahlil Gibran. O profeta. Trad. Ricardo R. Silveira, Ediouro, RJ, 2009.
     2. Vinicius de Morais. Col. Literatura Comentada, Abril, SP, 1980
     3. Nova Barsa. SP/RJ, volume 7, 1999, página 103
     4. pensador.com, em 30.11.2019
     5. Imagem retirado do site Revista Pazes
    

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