A persistência poética de Thomas Hardy

Quando alguém se dispõe fazer algo -e ainda divulga esse feito -, em qualquer que seja o ramo das artes, não é tarefa fácil. Assim ocorreu com os escritores norte-americanos Henry Thomas (1886-1970) e Dana Lee Thomas (1918) 102 anos, quando, na década de 1940, publicaram a obra Vidas de grandes romancistas, com apenas 20 biografados.


"Sempre houve uma grande curiosidade e um estranho mistério em torno da vida de de grandes romancistas. Afinal, que homens estão por trás das mais lidas e comentadas obras-primas de todos os tempos?
Reunidas neste livro estão as biografias de vinte dos maiores mitos da literatura mundial. Homens de obras e personalidades tão díspares quanto Boccaccio, Cervantes, Dickens, Balzac, Flaubert, Dostoievski são alguns dos que figuram aqui, mas desta vez como personagens. Origens, pensamentos, hábitos, amores, aventuras. Todos os elementos que compõem a vida de um grande romancista acabam por transformá-lo no protagonista de um romance tão fascinante quanto aqueles que genialmente concebe" (1).

"Houve época em que o romance era considerado um gênero menor. Hoje, no entanto, sabe-se que não é bem assim. Vivemos a época do romance, que se transformou num dos mais altos gêneros literários. Em suas expressões máximas, ele é uma reencarnação em prosa do antigo poema épico, pois traça um retrato interpretativo do homem e do mundo.
Os autores cujas biografias encontramos aqui são alguns dos que transformaram o romance num verdadeiro poema em prosa. São homens que fizeram não apenas literatura, mas história e filosofia; foram (e continuam a ser) verdadeiros formadores de gerações.
Além, ainda, de tudo isso, o romance é um retrato de quem o escreve. Daí o profundo interesse que sempre despertaram as vidas de grandes romancistas. Neste livro cada escritor é visto não apenas pelos fatos que viveu, mas também através de seus pensamentos. Chega-se à conclusão de que todo grandes romancista, quando observado desse duplo ângulo - exterior e interior -, termina por ser, ele também, o protagonista de um grande romance" (1).

O romance era, por assim dizer, o patinho feio da família literária, ou seja, não tinha valor porque distraia demais.  O próprio Walter Scott (1771-1832), ao por em dúvida a sua carreira de romancista, disse: "Não estou certo de que seria considerado perfeitamente decoroso que um funcionário do tribunal escreve romances".

O tempo passou e "hoje, contudo,  vivemos a época do romance. Pois ele nos deu obras-primas que igualam os mais nobres tipos de literatura. O romance moderno, mesmo em suas expressões menos notáveis, é um tapete mágico que nos conduz a um benéfico alheamento, tônico vital nos dias atuais. Em suas expressões mais altas, é uma exposição do pensamento filosófico apresentada em forma dramática. Em suas expressões máximas, é uma reencarnação em prosa do antigo poema épico (...). Como os poemas de Homero, o romance, em seu ponto mais alto, não é apenas uma síntese de filosofia aplicada à vida; é uma forma de literatura que inclui todas as outras formas - poesia, drama, história, biografia, ciência, sociologia, política, aventura, religião e arte. Hoje, o grande romance - e isso se aplica ao grande romance de qualquer época - é um retrato interpretativo do homem. Um retrato que mostra seu corpo, sua alma e sua mente.
E é algo mais, além de tudo isso. É o retrato revelador de um homem: o romancista. A melhor parte do enredo de qualquer romance é a história do romancista" (1).

Henry e Dana, além de mostrarem o exterior e o interior do momem, contam a história de cada um, "através dos fatos de sua de sua vida, dos seus pensamentos", isto é, acaba por revelar uma pitada de sua realidade pessoal, mesmo que por meio de suas personagens. Vidas de grandes romancistas, pode até ser considerado um livro pequeno com as suas 233 páginas. Mas grandioso é seu conteúdo. Fascinante sua narrativa e douradas suas páginas, repletas de puro saber. Dos 20 biografados, o livro tem início com Giovanni Boccaccio (1313-1375) e finda com Thomas Hardy (1840-1928).

Muito embora seus autores não revelem os critérios da pesquisa, perguntar não ofende: por que nenhum romancistas latino-americano fora incluído à obra? Os 20 são: 1 italiano: Giovanni Boccaccio, 1 indiano: William M. Thackeray, 1 espanhol: Miguel de Cervantes; 2 Norte-americanos: Nathaniel Hawthorne e Samuel Langhorn Clemens (Mark Twain); 2 russos: Feodor M. Dostoievski e Leon Tolstoi; 2 irlandeses: Jonathan Swift e Laurence Sterne; 4 ingleses: Daniel Defoe, Walter Scott, Charles Dickns e Thomas Hardy; e 7 franceses: François Rabelais, Honoré de Balzac, Alexandre Dumas, pai, Victor Hugo, Gustave Flaubert, Guy de Maupassant e Émile Zola.

Apesar de difícil escolha, um deles completa a conclusão deste artigo: Thomas Hardy. Ele nasceu em 2 de junho de 1840, no Reino Unido, e aí morreu em 11 de janeiro de 1928, aos 87 anos. Seu corpo era tão frágil que o médico o deu como morto. Mas, graças às palmadas vigorosas da ama, voltou à vida que durou quase 90 anos. 

Ainda criança, gostava tanto da natureza, que seu pai, um próspero empreiteiro de construções, permitiu que andasse pelos campos da propriedade da família, em vez de ir para a escola. No charco, próximo da casa, ficava observando o vai e vem das larvas e perguntava: Qual o significado de tudo aquilo? "Já homem maduro, voltou a sua atenção para as larvas humanas igualmente indefesas que chafurdam, se multiplicam e morrem no lamaçal da terra" (1). Foi quando resolveu sentar-se à beira da estrada da vida e esforçar-se para desvendar todo esse mistério: "Há tantas histórias interessantes nos rostos humanos", disse.

Sua 1ª educação foi ao ar livre. Seus livros eram "os regatos a correr". "Comovia-se vendo as árvores, vendo e ouvindo os animais e os pássaros". Sentia-se intimamente ligado à natureza. Tudo isso aos 9 anos de idade. Quando, então, chegou à escola tradicional, seus professores se espantavam com a facilidade com que assimilava os conhecimentos. Aos 16 anos sabia fluentemente latim, francês e a literatura inglesa (conhecia Shakespeare como ninguém). Estava ansioso para chegar à universidade.

Descobriu que era poeta desde pequeno. Mas os editores não tinham interesse em seus poemas. Não sabia fazer a sua própria propaganda. "À sua disposição estava tudo quanto é necessário ao gênero poético - instinto musical, imaginação, afinidade, aptidão inata para o emprego da frase adequada, concisão de ideias, condão de "converter sílabas em estrelas" -, tudo, enfim, menos inspiração" (1).

Aos 26 anos foi para Londres, onde, por 5 anos trabalhou como desenhista. Seu chefia via no rapaz algumas qualidades (comedido, lia muito, conhecia a arte de Shakespeare muito bem), mas faltava-lhe o necessário para triunfar no mundo: "Fazer as coisas com amor. Assim, seu futuro estava longe de ser promissor". Mas, como a vida sempre se renova, quase chegando aos 30 anos casa-se com Emma Gifford, uma jovem de classe média. Porém, apesar de uma lua-de-mel fugaz e delirante e de uma longa vida de incompatibilidade conjugal, ficaram juntos de 1874 a 1912, até ela falecer.

Aos poucos, Thomas voltava-se cada vez mais para a literatura como tarefa essencial de sua vida, chegando a prosa por insistência da esposa. "E assim, por instigação de uma mulher que não amava o marido, brotam algumas das mais belas histórias de amor da literatura inglesa". Portanto, seus livros são "construídos em grande parte sobre a fórmula do amor mal empregado". A seguir, uma citação dessa fórmula descrita comicamente: "Aprendi o amor unilateral, o amor recíproco e todas as espécies que existem, porém esta é a primeira vez que experimento o amor 'concatenado'. Você me acompanha, eu acompanho Ethelberta (da obra The Hand of Ethelberta), esta acompanha sabe Deus quem!"

Moral da história: A vida é uma comédia de erros no terreno da afeição. "Quem é amado, ama alguém, mas sobre todos os amantes pesa a maldição de que jamais consigam amar aqueles que lhes dedicam esse sentimento" (1|).

Por sua atitude pessimista radical diante das emoções humanas, Hardy teve muitos problemas com editores e críticos. Só depois de publicar vários romances, sua reputação começou a crescer, mas de forma gradual. Ele próprio acreditava num mundo melhor. "A missão do homem é ensinar seus semelhantes a fazer face à miséria para a qual nasceram".

Portanto, com a idade avançada, certificou-se de que os sofrimentos humanos não decorrem da malevolência de Deus nem da estupidez do homem isolado, mas da crueldade da sociedade, a qual, promove sua injustiça organizada contra o indivíduo. Em seus últimos dois livros (Tess of the D'Urbervilles e Judas, o obscuro), condenou com veemência o castigo que a sociedade humana impõe sobres algumas pessoas. E, por pintar a verdade sobre esse comportamento, defendendo, sempre a decência e a justiça por parte do homem, foi duramente criticado por todos os lados.  Até mesmo insultos à sua pessoa (em plena Inglaterra do século XX). Apesar de sempre agir com prudência sobre o que diziam de suas obras, chegou a desabafar: "Pensei que escrevia para leitores inteligentes".

Diante dessa reação, resolveu voltar-se mais uma vez para a poesia, por achar que "ninguém se melindrará com a minha poesia porque ninguém a lerá". Mas foi em frente: publicou oito volumes de poesia lírica e um poema dramático (peça) sobre a vida de Napoleão, e, aos poucos, começou a recuperar o respeito perdido. Se ninguém o lia, pelo menos o admiravam. Sua velhice seguiu serena, só foi perturbada pela porte de Emma - um duro golpe. Apesar de "uma vida tempestuosa não deixa de ter o seu gosto especial", balbuciou o notável poeta.

De lucidez fantástica, menos de 20 dias antes de sua morte, para o Natal daquele ano de 1928, ele escreveu um epigrama que resumia todo o amargor que sentia diante da "incurável selvageria"  do rebanho humano:

                          "Paz sobre a terra!" disseram.
                            Cantamo-la e pagamos a um milhão
                            de padres para trazê-la.
                            Após dois mil anos de missa
                            conseguimos ter gás tóxico".

"E depois da tempestade, a bonança". Aos 74 anos, casou-se com a jovem poetisa Florence Dugdala, de 35 anos e numa união perfeita (de 1914 a 1928), a harmonia durou até a morte do poeta-romancista-poeta em 11 de janeiro de 1928, de quem a viúva herdou "o reflexo da glória".Assim, um crepúsculo sereno e imponente pôs o fecho sobre sua longa existência, deixando atrás de si uma lembrança suave e um pensamento nobre. 

Com estas palavras St. John Ervine o exprimiu no seu tributo ao poeta: "Contigo aprendemos que o coração orgulhoso é capaz de subjugar a sorte mais madrasta (mais sofrido, nesse sentido). Em tudo que escreveste mostraste o espírito do homem persistem através da derrota".

Portanto, pouco tenho a dizer diante de tantas reflexões. Porém, digo que cado um de nós deve persistir para superar toda e quaisquer adversidades que a sociedade queira nos submeter (angústias, guerras, contendas, conflitos, medos, etc), como desejou que fosse a nossa morada, o nosso mundo, o nosso planeta, o escritor maranhense Graça Aranha (1868-1931), in Canaã:

                            "A pátria do homem devia limitar-se a um canto da terra
                                                 onde não houvesse sombra".

Notinha útil - Obrigado, mano Evans Gomes, por ter me presenteado com esta obra: Vidas de grandes romancistas, em 29.03.1995. É um livro simplesmente fascinante!
                                                            
Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Arte fotográfica por Winnie Gomes

Fonte
1. Vidas de grandes romancistas/Henry Thomas, Dana Lee Thomas; trad. James Amado. - 2. ed. rev. - Rio de Janeiro: Globo, 1987.
                                               

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