Clarice Lispector: a harmonia dos contrários

"Há momentos na vida em que sentimos tanta a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraça-la. Sonhe com aquilo que você quiser. Vá para onde você queira ir. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades  que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar, duram uma eternidade. A vida não é de brincar porque em pleno dia se morre."

São palavras daquela que nasceu na Ucrânia (ex-URSS), no dia 10 de dezembro de 1920 e com menos de um ano depois já havia emigrado com a família para o Brasil. Vindo morar no Recife (PE), onde passou a infância e adolescência até 1936. A partir de então, foi morar no Rio de Janeiro, onde morreu no dia 9 de dezembro, quando faltava apenas um dia para completar 56 anos de vida, vítima de câncer de ovário.

Fala-se de Chaya Pinkhasovna Lispector, ou melhor, Clarice Lispector, que somente veio a naturalizar-se brasileira em 1943. Escritora, jornalista e advogada, autora de ensaios, contos, romances, novelas e crônicas. Sua obra é de singular importância na literatura brasileira. Por isso, é considerada uma das escritoras brasileiras mais notáveis do século passado, e a maior escritora judia desde Kafka, devido ser sua natureza densa e original, na qual busca "uma linguagem especial para expressar paixões e estados da alma", utilizando "recursos técnicos modernos como a análise psicológica e o monólogo interior". 

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Essa autora "expressa uma visão profundamente pessoal e existencialista do dilema humano, num estilo que se caracteriza pelo vocabulário  simples e pela estrutura frasal elíptica. Sua ficção transcende o tempo e o espaço; os personagens, postos em situações limite, são com frequência femininos e só secundariamente  modernos ou mesmos brasileiros" (1). "O principal eixo de sua obra é o questionamento do ser, o "estar-no mundo", a pesquisa do ser humano, resultando daí o chamado romance introspectivo", isto é, essa literatura intimista busca fixar-se na crise do próprio indivíduo, seja na sua consciência ou inconsciência. 

"Grande estilista, utiliza a linguagem mediante a interiorização  dos recursos expressionistas, procurando integrar o narrador na existência dos personagens que compõem a narrativa. Sua prosa de caráter intimista, volta-se para os conflitos do ser humano, aprofundando-se na tensão entre a plenitude e o vazio existenciais, entre a paixão e a racionalidade. Seu estilo é dramático, marcado por uma ironia inteligente, em conflitos descritos por frases contidas e por formas de narração ousadas e inovadoras" (2).

Quando chegou por aqui ainda era uma criancinha. Porém, o Brasil vivia efervescentes ideias, a procura de novas tendências literárias. Resultando, portanto, na Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922. Chaya foi vivenciando toda aquela movimentação artística, principalmente quando mudou-se para o Rio aos 16 anos. Na capital federal não perdeu tempo e ainda muito jovem entrou de corpo e alma para a literatura. Com apenas 22 anos, lança seu primeiro romance: Perto do coração selvagem, cujo enredo é uma visão interiorizada do mundo da adolescência. Muito bem aplaudida pela crítica. Recebeu o Prêmio Graça Aranha.




Em 1944, recém-casada (1943-1959) com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos: Pedro e Paulo, o casal vai morar em Nápoles, onde ela serviu num Hospital da FEB durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1946, volta ao Rio onde publica O lustre. Algum tempo depois segue para uma longa temporada na Suíça e EUA. Retornando, depois, ao Brasil em definitivo. 

Sua produção literária é vasta. No entanto, suas principais obras são: Os romances Perto do coração selvagem (1943), A paixão segundo G.H. (1964), considerado por muitos estudiosos como sendo o seu livro mais importante  e Água viva (1973); sua melhor prosa consta nos contos A legião estrangeira (1966) e Laços de família (1972);  a novela A hora da estrela (1977) ; além de outros trabalhos de destaque como A moça no escuro (1961), A "via crucis" do corpo (1974), etc.

O jornalista, escritor e mestre em Comunicação pela UFRJ, José Castello, assim se manifesta sobre a escritora e a sua obra mais festejada: 

"Pouco antes de morrer, em 1977, Clarice Lispector decide se afastar de inflexão intimista que caracteriza sua escrita para desafiar a realidade. O resultado desse salto na extroversão é A hora da estrela, o livro mais surpreendente que escreveu. Se desde Perto do coração selvagem, seu romance de estreia, Clarice estava de corpo inteiro, todo o tempo, no centro de seus relatos, agora a cena é ocupada por personagens que nada se parecem com ela. 

A nordestina Macabéa, a protagonista de A hora da estrela, é uma mulher miserável, que mal tem consciência de existir. Depois de perder seu único elo com o mundo, uma velha tia, ela viaja para o Rio, onde aluga um quarto, se emprega como datilógrafa e gasta duas horas ouvindo a Rádio Relógio. Apaixona-se então, por Olímpico de Jesus, um metalúrgico nordestino que logo a trai com uma colega de trabalho. Desesperada, Macabéa consulta uma cartomante, que lhe prevê um futuro luminoso, bem diferente do que a espera. 

Clarice cria até um falso autor para seu livro, o narrador Rodrigo S.M., mas nem assim consegue se esconder. O desejo de desaparecimento, que a morte real logo depois consolidaria, se frustra.

Entre a realidade e o delírio, buscando o social enquanto sua alma a engolfava, Clarice escreveu um livro singular. A hora da estrela é um romance sobre o desamparo a que,  apesar do consolo da linguagem, todos estamos entregues" (5).

Esse consagrado livro da nossa literatura, cuja personagem é uma pobre moça alagoana do interior em busca de sobreviver na cidade grande, como relata acima, o professor Castello. "A versão cinematográfica desse romance, dirigida por Suzana Amaral em 1985, conquistou os maiores prêmios do Festival do Cinema de Brasília e deu à atriz Marcélia Cartaxo, que fez o papel principal, o troféu Urso de Prata em Berlim em 1986" (1).

A literatura universal está repleta de correspondências mantidas  por anos a fio por poetas, escritores, sejam amigos ou não. Porém, nada supera Cartas perto do coração, ou seja, a intensa troca de cartas, por longos anos entre dois jovens escritores que se tornaram destaque na literatura nacional: o mineiro Fernando Sabino e a pernambucana Clarice Lispector.



Relata Sabino que em janeiro de 1944, quando "mal havia completado vinte anos e recebia em Belo Horizonte", um exemplar de "Perto do coração selvagem", com a seguinte dedicatória: "Rio, 8.1.44, a Fernando Tavares Sabino, homenagem sincera de Clarice Lispector". Completa, o escritor: "Eu nem sabia quem fosse. Fiquei deslumbrado com o livro. Fiquei deslumbrado com ela".

"A partir de então tivemos um convívio diário", quer dizer, trocavam ideias sobre tudo por meio de cartas. Isso ocorreu entre 1946 a 1969. "Era mais de que a paixão pela literatura, ou de um pelo outro, não formulada, que unia dois jovens 'perto do coração selvagem da vida': o que transparece em nossas cartas é uma espécie de pacto secreto entre nós dois, solidários ante o enigma que o futuro reservava para o nosso destino de escritores" (6). Esclarece o mineiro.

En passant, as missivas divulgadas em Cartas perto do coração foram cedidas pelos familiares dos dois escritores, dos acervos dos descendentes. Trata-se, portanto, de um livro fascinante! Por exemplo, num trecho da carta de 06.07.1946, o jovem de apenas 23 anos, diz a Clarice:

"Você avançou na frente de todos nós... Apenas desejo intensamente que não avance demais, para não cair do outro lado. ... Tem de ser equilibrista até o final... apertando o cabo da sombrinha aberta, com medo de cair,  olhando a distância do arame ainda a percorrer - sempre exibindo para o público um falso sorriso de serenidade".

Numa outra, dez anos depois, em 26.12.1956, ele escreve:
"O importante não é dizer, é saber... É todo mundo ver que o rei está nu, e não dizer nada, para que uma criança possa exclamar: - O rei está nu!"

Passados treze anos, ou seja, a 29.01.1969, Sabino grafa:
"Esta carta não lhe dá a medida de como eu quero bem e admiro o seu novo livro (A legião estrangeira), como tudo que vem de você... Certamente vou relê-lo como aos demais, uma, muitas vezes, até que ele também acaba fazendo parte de mim".

Por sua vez, em 21.04.1946, a jovem escritora de apenas 26 anos, escreve ao amigo, de Berna, Suíça:
"Helena, Fernando, Paulo, Otto, esta carta em conjunto parece discurso - é que eu desejaria contar a cada um de vocês um pouco da viagem e acabaria no artifício de não repetir fatos ou palavras..."
(Vamos às referências: Helena, esposa de Fernando, Fernando, o próprio, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende, escritores mineiros).

Ainda nessa fase de regulares correspondências - por mais de duas décadas -, em 19.06.1946, Clarice escreve:
"E você é espírita, Fernando? Então como é que você me pergunta o que eu faço às três horas da tarde?...Às três horas da tarde sou a mulher mais exigente do mundo. Fico às vezes reduzida ao essencial, quer dizer, só meu coração bate. Quando passa, vêm seis da tarde, também indescritíveis, em que eu fico cega".

Onze anos depois, em 08.01.1957, ela faz este relata:
"É curioso como seu livro e o meu têm a mesma raiz. Só que o seu termina com uma luz mais aberta - o encontro marcado se realiza... O fato de você ter escrito este livro e eu ter escrito o meu não é o começo da maturidade? ... Me deu a certeza de um encontro marcado, e a esperança... Depois do livro, ainda mais sua amiga. Mas a verdade também é que, se não tivesse gostado tanto, também seria".

Assim, segue cheio de revelações o conteúdo de "Cartas perto do coração:  dois jovens escritores unidos pelo mistério da criação", em 206 páginas com notícias de lá e de cá, contagiando  e contentando os leitores; também, com dúvidas e perguntas.

Na obra, "A descoberta do mundo", Clarice toca nossa alma p r o f u n d a m e n t e, com Brincar de pensar, cujas palavras imortais são as seguintes:

"A arte de pensar sem riscos é um brincar de pensar. Não fossem os caminhos de emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir. Não se convidam amigos para o jogo por causa da cerimônia que se tem de pensar. O melhor modo é conviver apenas para uma visita, e, como quem não quer nada, pensa-se junto, no disfarçado das palavras. (...)
Bom, mas quando o pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance e todos, algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas, de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo. (...)
Uma vez, por exemplo - no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora - eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de... E foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar - como - hobby. E escrevi esperto: rol de sentimentos. O que eu não queria dizer com isto, tive que deixar para ver depois - outro sinal de se estar em caminho certo é o de não ficar aflito por não entender; a atividade deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.
Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por uma pessoa de quem não gosto - como se chama o que sinto? A saudade de que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor - como se chamam? Estar ocupada - e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre se tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?"

São os mistérios de Clarice. Aliás, mistérios que cada pessoa tem os seus. No caso dela, os soube pô-los cronologicamente numa "listinha de sentimentos", quer dizer, teve a coragem de expô-los quando disse com veemência: "Sou tão misteriosa que não me entendo. Eu sou sim. Eu sou não. Aguardo com paciência a harmonia dos contrários. Serei um eu, o que significa também vós".

"Em 1966, sobreviveu a um incêndio em seu quarto, provocado por um cigarro aceso. Passou três dias em estado grave por causa das queimaduras e entrou em longa depressão. Solitária, assim Clarice resumiu sua literatura: "Não escrevo para fora, escrevo para dentro" (4). Apesar de avessa a vida social e sempre evitando a falar sobre sua pessoa, refugiou-se na literatura.

pouco antes de sua eterna partida, nos deixou "um impressionante depoimento numa estação de tevê". Perguntada se podia ser detectada "a presença judaica no texto clariciano", apesar de evasiva, respondeu de maneira firme: "Sou judia, você sabe... Eu enfim sou brasileira, pronto e ponto" (7).

"Quando morreu, Clarice Lispector era, reconhecidamente, uma das vertentes da literatura brasileira contemporânea, influenciando inúmeros autores. Insegura de sua real posição, ela admitia que nascera para escrever, como nascera para amar os outros e criar seus filhos. Mas lamentava tal influência: "Tenho medo de que toda a minha literatura seja um equívoco. Acho que estou na moda. Não aprovo meu tipo de literatura, não sou conivente comigo".

                                    "Uma escritora decidida a desvendar as profundezas da alma.
                                          Essa é Clarice Lispector, que escolheu a literatura como
                                                  bússola em sua busca pela essência humana.
                                          Sua tentativa de transcender o cotidiano revela-se  em
                                              personagens na iminência de um milagre, uma
                                                       explosão ou uma singela descoberta .
                                              Todos suscetíveis aos acontecimentos do dia a dia.
                                                       Vidas que se perdem e se encontram  em
                                                        labirintos formados por uma linguagem
                                                            única, meticulosamente estruturada.
                                                                 E é por essa linguagem  que
                                                                   Clarice Lispector constrói
                                                                      uma obra de caráter tão
                                                                            profundo quanto
                                                                                 universal".
                                                                                      (5).

Finalizado aqui com chave de ouro, é certo, que tanto Clarice quanto a reunião de suas obras nos fazem palpitar o coração. Disso o poeta: "É preciso amar as pessoas/Como se não houvesse amanhã". Clarice amou. Pro(criou). Criou seus filhos. Criou personagens. Criou palavras. Palavras que contentam seus leitores. Palavras que escondem os nossos medos, os nossos mistérios. É "a harmonia dos contrários".

TEM MAIS: Sua literatura não foi (não é) um equívoco, como ela própria temia. Prova disso, está nas 31 obras publicadas, há quase 80 anos do seu primeiro livro: Perto do coração selvagem (1943), que são lidos até hoje; achava ela que o reconhecimento pela sua arte "era moda".  Não era. Sua prosa superou o tempo; não queria ser conivente consigo mesma. Mas seus seguidores: de ontem, de hoje e de amanhã o são (e serão) coniventes (no bom sentido), com a sua produção literária.

Os pernambucanos, principalmente os recifenses, têm todo o ano de 2020, para homenagear dois grandes vultos das nossas letras, pela passagem do centenário de nascimento de João Cabral de Melo Neto e Clarice Lisoector., também homenageados pelo Facetas, mesmo que de forma singela.

Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Arte fotográfica por Winnie Barros 

Fontes
1. Nova Barsa, SP/RJ, volume 9, 1999, páginas 71/72.
2. Dicionário Biográfico Universal Três- SP., volume 7, 1983, páginas 154/155
3. Português de olho no mundo do trabalho: vol. único/Ernani Torres e José de Nicola. - SP, Scipione, 2005.
4. 501 grandes escritores, trad. de Lívia Almeida e Pedro Jorgenson Jr. RJ: Sextante, 2009
5. Lispector, Clarice. A hora da estrela- 8. ed. -RJ. Rocco, 1998, 1ª edição.
6. Cartas perto do coração, F. Sabino e C. Lispector, RJ. - Record., 2011.
7. Mistérios de Clarice. - Seção Livros, Época, nº 342, de 06.12.2004.

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