Floresta do Amazonas - Villa-Lobos (parte I)

Os nossos leitores mais antigos já sabem que o Facetas não tem mais conserto. Ou seja, está sempre contrariando os preceitos da boa escrita. Explico: às vezes, onde é o desenvolvimento do texto, vem a conclusão; onde devia ser a introdução, está o desenvolvimento. O texto a seguir, por exemplo, começa pelo desenvolvimento. É meio louco, mas, no final, tudo se encaixa na justa medida e todos compreendem e ficam satisfeitos.

                               GLÓRIA AMANHECENDO

"Era um espetáculo. Tinha algo de vento forte na mata, arrancando e fazendo redemoinhar ramos e folhas; caia depois sobre a cidade para bater contra as vidraças, abri-las ou despedaçá-las, espalhando-se pelas casas, derrubando tudo; quando parecia chegado o fim do mundo, ia abrandando, convertia-se em brisa vesperal, cheia de doçura. Só então se percebia que era música, sempre fora música.

Assim é que eu vejo Heitor VIlla-Lobos na minha saudade que está apenas começando, ao saber de sua morte, mas que não altera em nada a visão antiga e constante. Quem o viu um dia comandando o coro de quarenta mil vozes adolescentes, no estádio do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melo-dia (assim mesmo) e criando a comunhão mais generosa, ardente e purificadora seria possível conhecer. A multidão em torno vivia uma emoção brasileira e cósmica, estávamos tão unidos uns aos outros, tão participantes e ao mesmo tempo tão individualizados e ricos de nós mesmos, na plenitude de nossa capacidade sensorial, era tão belo e esmagador, que para muitos não havia outro jeito senão chorar, chorar de pura alegria. Através da cortina de lágrimas, desenhava-se a nevoenta figura do maestro, que captara a essência musical do nosso povo, índios, negros, trabalhadores do eito, caboclos, seresteiros de arrabalda (assim mesmo); que lhe juntara ecos e rumores de rios, encostas, grutas, lavouras, jogos infantis, assobios e risadas de capetas folclóricos. 

"Telúrico" dir-se-ia palavra cunhada para definir Villa-Lobos, tamanha era nele a identificação musical como a terra, mas o criador não cabia dentro do vocábulo. Encarnava ainda o mistério do artista, em sua intemporalidade e inespacialidade; encarnava-o até à revelia de se mesmo, pois muitas vezes o que se manifestava à superfície era o homem comum, com suas contingências e limitações. Mas, no fundo, o ente fabuloso espreitava, prestes a irromper e subjugar o Villa-trivial, impondo-lhe e impondo-nos sua grandeza. Há tantos falsos grandes, tantos grandes laboriosos que só conseguem sê-lo à custa da superposição calculada e teimosa de pedrinhas e sarrafos; em Villa, a grandeza não era apenas autêntica, mas espontânea, inelutável, independia dele, do que ele pretendesse, pensasse ou dissesse; até parecia brigar com o proprietário, às vezes

Com todo orgulho sabê-lo brasileiro, alguma coisa me perturbava em sua personalidade artística: intuía que Villa concentrava uma opressão maior, raríssima entre nós: a expressão americana. Em geral somos homens, de uma cidade, no máximo de uma região que nos condiciona e explica; poucos sabem, através de uma obra de invenção ou reflexão, dar a imagem do Brasil e confundir-se com ela; mais quando alguém chega a incorporar um imponderável geofísico e humano, que excede o quadro nacional e sugere uma realidade mais vasta e complexa, de que apenas começamos a tomar consciência, como é a realidade interior da América, esse alguém nos causa uma espécie de assombro feliz. Foi o caso de Villa-Lobos, é o caso de Portinari, hoje acima e além do capricho das modas. E isso explica talvez um pouco a "solidão" nacional de ambos. 

Villa foi tido por muito tempo, entre nós, como um artigo de exportação, sua glória vinha da Europa e dos Estados Unidos para refletir-se no Brasil, e este se mostrava mais sensível aos aspectos brilhantes de sua notoriedade que à corrente profunda de vida e criação que circulava em sua obra. As gerações mais novas parece que o vão encontrando, graças ao alargamento da cultura musical e também à divulgação de boas gravações estrangeiras, já que as execuções nacionais nem sempre deram tudo que podiam dar. a tristeza de muitos, principalmente de moços, ontem no salão do Ministério da Educação em meio às gigantescas massas florais que lhe cercavam o corpo, enquanto se fazia ouvir o grave coral melancólico, me comunicou o sentimento consolador de que a glória de Villa-Lobos está amanhecendo no Brasil". (1).

São fortes as palavras acima do poeta, e também cronista mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publicadas no "Correio da Manhã, de 19.11.1959, sobre a morte do notável maestro carioca Heitor Villa-Lobos (1887-1959), ocorrida dois dias antes. Glória Amanhecendo, foi republicado na contracapa do vinil (disco, LP) "Floresta do Amazonas - Villa Lobos" em 1988, sob patrocínio do Banco do Brasil, pela passagem dos seus 180 anos de fundação (1808-1988).


Tudo no disco é primoroso. Tudo o que nele está escrito reporta-se em três idiomas: o italiano, o português e o inglês. O encarte, em oito páginas é uma joia à parte. Vejamos: Solista: Maria Lúcia Godoy; regente: Henrique Morelenbaum; quem faz a síntese sobre: as músicas (são 11, ao todo); o disco "Floresta do Amazonas"; Villa-Lobos; e Maria Lúcia Godoy, é ninguém menos que o crítico e musicólogo carioca, membro da Academia Brasileira de Música, Eurico Nogueira França (1913-1992). Enquanto que sobre o maestro Morelenbaum (1931, hoje com 88 anos), e também, sobre Villa, os resumos são da própria Godoy; e sobre todos, o comentário vem Banco do Brasil. 

    "Ao apoiar o lançamento do presente disco, o Banco do Brasil está consciente do alcance cultura da iniciativa.
     Todo um conjunto de grandes artistas nacionais se envolveu no projeto visando a levar ao público uma das mais importantes criações do gênio de Villa-Lobos. 
    A par do valor estritamente cultural do disco, vem ele a público num momento extremamente oportuno. Poder-se-ia dizer que a humanidade vive hoje a hora da ecologia. É universal o sentido cada vez mais disseminado de que a preservação dos recursos naturais do planeta é prioridade absoluta de todos os seres vivos e das gerações que virão.
     A Amazônia responde por boa parte desse tesouro e sua manutenção como pulmão do mundo, em toda  a exuberância de sua vida animal e vegetal, é condição indispensável para o futuro da nação brasileira e de todos os povos.
    O engajamento do Banco nessa causa nobilíssima fica expresso com o lançamento da presente obra. Que os sons criados por Villa-Lobos e cantado por Maria Lúcia Godoy, continuem vivos e ouvidos hoje e para sempre". (1).



Porém, vem de Godoy a seguinte observação sobre o mestre e sua obra, com o título: VILLA-LOBOS: O MAIOR ECOLOGISTA DA MÚSICA BRASILEIRA, assim: "Uma década após a morte de Villa-Lobos, tive o privilégio de ser a solista, em 1969, da primeira audição mundial completa, em público, da "Floresta do Amazonas", com a Orquestra e Coro do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sob a regência de Mário Tavares, uma das maiores autoridades da obra do grande mestre. O Teatro veio abaixo, o público aplaudindo de pé, tocado pela magia, pela ambiência tropical, pela explosão de ritmos e cores de uma floresta magnífica que se desenhava através do talento e do feitiço e um exuberante Villa. O mesmo sucesso se repetiria em outras ocasiões por diversos Estado do Brasil como, por exemplo, em 1975, na reinauguração do Teatro Amazonas, da qual participei, juntamente com a Orquestra e Coro do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, conduzidos por Morelenbaum, tanto ele, como a solista, apaixonados pela obra. A Floresta de Villa exercia o seu fascínio sobre o público, derramando seu oxigênio musical por todo o Brasil. 
Em 1975, participamos também do primeiro Festival Nacional e Internacional de Dança do Rio de Janeiro, organizado por Dalal Achcar, com Orquestra, Coro e Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no evento que seria a estréia mundial da "Floresta do Amazonas" em forma de "Ballet". Entre grandes bailarinos brasileiros, destacava-se, despedindo-se dos palcos, Dama Margot Fonteyn, especialmente convidada como primeira bailarina solista da grande noite. Sucesso triunfal, quando no vocalise (assim mesmo) final da Melodia Sentimental, a voz da  solista ganha uma dimensão inesperada, incorporando-se ao "pas de deux" da grande bailarina e de seu "partner" do Royal Ballet, David Wall. Foi emocionante. Uma onda de paixão e êxtase tomava conta do público, quando o par amoroso desaparecia nas labaredas de fogo tão magistralmente descritas por Villa-Lobos como se fosse um grito musical de alerta contra a devastação das florestas do mundo. assinava o cenário o argentino Verona, e a coreografia, Sir Fredric Ashton e a própria Dalal. O maior astro, entretanto, continuava sendo sempre Villa. Revisitemos, pois, nesta gravação (1988), a Floresta Amazônica, tão magistralmente preservada para a posteridade através da trama musical de Villa-Lobos. Penetremos em seu denso mistério, sua exuberante vegetação, suas lendas, seus seres encantados. Estamos à sua espera, Villa-Lobos, o maior ecologista da música brasileira, e nós, seus devotos intérpretes" (1).

O relato em si, já nos emociona, imagina-se lá, ali, presente, assistindo a tudo isso, ora narrado por Godoy. Tem mais: na próxima edição, o Facetas trará o comentário de Eurico França sobre o tema "Floresta do Amazonas", sobre as músicas que compõem o disco; sobre a voz marcante de Godoy; sobre o grande mestre Morelenbaum, e, principalmente, sobre o criador de todo esse cenário cultural, ou seja, toda essa riqueza musical, Heitor Villa-Lobos.


Notinha útil - Só para lembrar aos nossos valiosos leitores, que a exatos 141, isto é, no dia 14 de março de 1879, nascia em Ulm, Alemanha, Albert Einstein, o qual faleceu em Nova Jersey, EUA, em 18 de abril de 1955, aos 75 anos.

Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Fotos e formatação por Winnie Barros

Fonte
1.Encarte do LP "Floresta do Amazonas - Villa-Lobos, ed. BB, Karmim Promoções, RJ, 1988.
2. Imagem 1 - Jornal Acrítica, em 28.01.2001.
3. Imagem 2 - Encarte do LP "Floresta do Amazonas", 1988.

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