A "Falsa Alegria", de Sérgio Souto e Amaral Maia

Você sabe quem é Sérgio Nobre Areal Souto? É o cantor e compositor acreano Sérgio Souto. Ele nasceu em 11 de julho de 1950 (69 anos), no Município de Sena Madureira (AC). Sérgio é um daqueles artistas que nos enchem de orgulho e contentamento pela ótima qualidade de seu trabalho. "Aos 15 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, levando na bagagem da memória os sons da Amazônia. No violão aprendiz, começa a mesclar a inquietude urbana com a tranquilidade da mata, a partir de 79 (aos 29 anos) começa a compor profissionalmente" (1).

Trabalho como fotógrafo, gráfico e vendedor. Nas décadas de 70 e 80, participou de quase todos os festivais de MPB (da Tupi, da Globo, do SBT, da Manchete, entre outros. Em 1979, no Festival Rodada Brahma de MPB, venceu em primeiro lugar com a música Falsa Alegria (dele e Amaral Maia). No ano seguinte lança seu 1º LP "Sérgio Souto" independente e fica nacionalmente conhecido com o estrondoso sucesso que essa canção obteve. 


"Com repertório variado - que reúne toada, samba, fado e música regional - Sérgio Souto firmou importantes parcerias ao longo de sua carreira, assinando composições ao lado de grandes nomes da MPB como Aldir Blanc, Paulo Cesar Pinheiro" (2), Moacyr Luz, Sérgio Natureza, Amaral Maia, Zeca Torres, Jorge Vercilo, Jota Maranhão, Celdo Braga, entre outros, graças a espontaneidade do seu processo de criar, de compor.

Também são muitos os intérpretes de suas músicas: Jessé, Nelson Gonçalves, Cláudio Nucci, Elba Ramalho, Jorge Vercilo, Fagner, Nilson Chaves, Eliana Printes, Zeca Torres, Célio Cruz, etc. Segundo o próprio Souto: "desconheço a palavra inspiração, o que eu vejo a necessidade de disciplina para musicar e compor o texto" (3). Isso pode ser um fator determinante para "atrair" tão bons intérpretes para exteriorizar as suas ideias. 

Apesar de ser conhecido em todo o Brasil e já ter se apresentado em muitos palcos (sempre na modalidade voz e violão) , como no Maracanãzinho, Anhembi, Olímpia, Dragão do Mar; nos Teatros: Amazonas, da Paz, Castro Alves, Carlos Gomes, Plácido de Castro, entre outros, Sérgio, do seu lado original de ser, jamais deixou de voltar ao Norte. Por sinal mora em Rio Branco, capital do Acre há vários anos, onde, de acordo com o próprio, leva "uma vida tranquila". Mas, continua "fazendo produções artísticas. 

Em abril de 2019, em apresentação em Manaus, ou melhor, no Galvez Botequim, para comemorar seus 40 anos de carreira, disse que quando esteve aqui "pela primeira vez, trouxe meus discos de vinil debaixo dos braços para por nas lojas e nunca imaginei que fosse ter toda aquela explosão (de vendagem). Imagina uma música (Falsa Alegria) passar por 40 anos e ainda fazer sucesso, com tantas décadas de novidades e movimentos (tecnológicos" (3). 

Até 2019, havia gravado 13 discos, entre eles, "Sem Babilaques (autografado ao meu irmão Evans Gomes, em 200), "Naturalmente", Bálsamo", "Umas e Outras", "Frente e Verso", e, principalmente, o disco de 1980, "Sérgio Souto", cujo hits foi Falsa Alegria, criação dele e do carioca Amaral Maia. Também, nesse LP consta o fado Navegante (Sérgio Souto-Jota Maranhão). Por sinal é uma das canções mais fascinantes desse gênero. E mais ainda, quando é ouvida na interpretação de Jessé, no disco de 1981.

Quando do lançamento do disco (Falsa Alegria, 1980), o jornalista João Máximo, publicou o seguinte artigo no Jornal do Brasil: "O mínimo que se pode dizer de Sérgio Souto é que ele é um artista surpreendente. E este seu primeiro disco - oferecendo em cada faixa uma surpresa - prova isso. Mas saber surpreender é arma pouca para se enfrentar, de peito aberto, como ele se propõe, os desafios de uma música popular tão saturada de compositores-cantores como a nossa. Daí ser preciso explicar que Sérgio Souto, além de surpreendente, é talentoso. Do que este disco também é prova. 
A mim, pessoalmente, as doze faixas que o compõem revelam que este acriano de 30 anos, mas corajoso do que ele mesmo pensa (é necessário muita coragem para investir num disco independente, sem qualquer apadrinhamento), este acreano, enfim, decidido a conquistar uma faixa do universo que baianos, cearenses, paraibanos e afins pareciam ter monopolizado, é um autêntico viajante da música popular brasileira. Um viajante que se lança, através de suas composições a descobrir - e a transmitir - novas e atraentes experiências, tantos sonoras quanto poéticas. Para começar, esta irresistível Falsa Alegria (1º lugar na Rodada Brahma de Música Popular 1979), um samba que revive os tempos em que nossos compositores urbanos criavam, nas mesas dos botequins (onde estão os botequins?) as suas obras-primas. Companheiro de Sérgio nesta e em outras viagens é o jovem poeta Amaral Maia ("As mágoas do tempo acabaram com todos os meus planos...").
Do samba urbano Sérgio salta para a toada Movimento,  uma primeira e intrigante surpresa. Em De Vez em Quando, a viagem se estende até outros pontos da América Latina, quem sabe o Paru. Quem sabe a Bolívia, não fosse o acreano Sérgio um vizinho daquelas bandas. 
E quando se pensa que o ritmo vai prevalecer - um ritmo agitado e febril como se ouve na maior parte da América Latina - Sérgio nos canta Como Há Vinte Anos, uma valsa dolente par seresteiro nenhum botar defeito. Surpresa? Pois outras já estão a caminho, a começar pela dançante Confissão, capaz provocar suspiros nostálgicos nos dançarinos das festas de formatura de 20, 30 anos atrás. 
As surpresas se prolongam por todo o lado 2. Navegante, injustamente eliminado das finais do Festival da TV Tupi em 1979, é um fado perfeitamente construído. Nova surpresa? É preciso prestar atenção nos nos versos de Jota Maranhão ("Descobrir teus desejos, navegar em teus ais..."). Boêmios Esquecidos é um bolerão que há de levar de volta a seus bons tempos todo jovem frequentador dos cabarés boêmios das cidades do interior dos anos 50. Provação exige reflexão. Tem cheiro de terra, de chão brasileiro, de coisa nossa. Almir Gusmão é outro poeta que prova o bom gosto de Sérgio Souto na escolha de seus parceiros ("E a fronte do próprio homem cansou de plantar suor..."). Para refletir. Coroa de Espinhos não é menos surpreendentes: um tango, com arroubos desesperados e tudo mais ("E uma farpa de sol fere a manhã..."), acompanhado apenas por violões, no melhor estilo de Gardel e Le Pera. Delírio é puro estado de espírito (os intelectuais dos anos 50 quase crucificaram Wilson Batista quando ele transformou o seu delirium tremens num samba chamado Sistema Nervoso, sem saberem, coitados, que o mundo do poeta é feito de muitos infernos interiores).
Vale a pena examinar o que diz o letrista Vivalde Filho nesta estranha composição ("Maior medo é a cidade sem ninguém"). Xote é puro Brasil. Que comentário melhor do que a citação de um dos versos ("Vou ser mais um brasileiro compositor popular..."). Por fim, Uns aos Outros,  algo assim como uma guarânia, só que sem as divagações um tanto água-com-açúcar dos cantores paraguaios do tipo Cascatinha e Inhana ("Minha miséria ão foi Deus quem quis, muito menos eu...").
Resta ouvir Sérgio Souto, este compositor-cantor pronto a transformar seu violão numa quixotesca lança voltada contra os moinhos de vento da música popular brasileira. Sem querer ser profeta, algo me diz que este viajante tem tudo para chegar ao seu porto") (4).

João Máximo tinha razão e acertou em cheio: Sérgio Souto, chegou definitivamente "ao seu porto" com larga margem de confiança. E, com ele, vieram tantos outros - poetas, intérpretes, letristas, etc - que se firmaram (e bem) ao longo dessa viagem de 40 anos. Só para melhor corroborar, no encarte do disco em questão, está escrita em letras garrafais, a oportuna frase do próprio Souto:
                 "SAÍ DO MATO QUANDO O SOL NEM TINHA APONTADO NA SERRA,
                  E VIM CAÇAR LUA CHEIA NOS INTERVALOS DOS ARRANHA-CÉUS".

E, para fechar este ciclo de palavras sobre esse grandioso poeta da nossa música nacional, mais mais apropriado aqui, a letra original de FALSA ALEGRIA:
Puxa a cadeira, senta e conversa com o velho amigo
Há tanto tempo preciso contar todo meu castigo
Mas veja que graça; a dor estampada em meu rosto
E as sobras da noite que hoje me servem de encosto
     Senta e me explica tudo o que a vida me fez
     Ás vezes nem quero pensar mas me fica o talvez
     Veja que eu aparento bem mais uns dez anos
     E as mágoas do tempo acabaram com todos meus planos
         Agora a lua tá boa para se cantar, pega o violão
         Dedilha um samba enquanto eu afino o coração
         E juro não olho pro nome dela gravado na mesa
         E deixo um segundo a alegria enganar a tristeza
              Desce mais uma cerveja bem gelada, seu garçom
              Que essa roda é por conta da casa do patrão
              Eu hoje só tenho os amigos de bar
              E deixo essa falsa alegria a tristeza enganar (4).

A tristeza da gente é sorrateira, mas se você souber dribla-la com uma "falsa alegria", esta se revigorará,  verdadeiramente, aquela, não.

Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Arte por Angeline Gomes

Fontes
1. Clubedochoro. com.br
2. Deemtempo.com.br
3.www12.senado.leg.br
4. LP "Sérgio Souto", Tapecar Gravações (Disco independente), RJ, 1980.



            














     

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