Voluntariado e Compromisso da Pastoral da Criança

Igreja-Matriz, praça Coronel Labre, Lábrea-AM

Um dos mais influentes poetas, escritores e jornalistas amazonenses da atualidade, Aldisio Filgueiras, publicou numa das páginas de um jornal local já extinto, estes memoráveis versos: 
                      
                       Nem tudo é tardio
                       se a tarde insiste
                       em ser noite 
                       se a manhã é de outro dia.

Nunca é tarde quando se quer trilhar na busca de mais conhecimento. O caminho do saber, do aprender está aí a disposição de cada pessoa. Há pedras no meio desse caminho? Sim, há. Mas podem (e devem) ser removidas. Assim fez o servidor público estadual Antonio Carlos Lacerda de Souza (60 anos), quando removeu os percalços da estrada da vida; superou obstáculos e estudou sempre. Era pequeno, era criança, mas grande sempre foi seu interesse pelos estudos, a princípio, os primários, os escolares.

Nascido em 1959 no seringal São Miguel, às margens do rio Purus -  entre os Municípios de Boca do Acre e Pauini -, distante dias e dias de viagem de barco da Capital Manaus (AM). Com menos de dois anos de idade já estava morando em Lábrea, onde cresceu, constituiu família, trabalha e mora até hoje. Ali iniciou os estudos básicos em 1966 (à época uma criança só podia ingressar na escola a partir dos 7 anos). Mas, somente em 2017, quando já era um adulto com mais de 55 anos, concluiu o curso superior em Administração oferecido pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Foi longa a trajetória? Sim, foi. Foram mais de cinco décadas. Porém, eram muitas as palavras por ele ditas e/ou pensadas, como "persista"; "tenha força de vontade"; "aprenda mais", etc. Imagina-se como tudo era muito difícil 50 anos atrás. Você morando num vilarejo cravado no interior do interior da selva amazônica. Mesmo assim, o menino seguiu a cartilha do aprender: estudou no tradicional Educandário Santa Rita, dirigido pelas dedicadas freiras, mas conhecidas por Irmãs Agostinianas Recoletas. Alguns anos depois, o adolescente já estava no tão almejado Ginásio Estadual Santo Agostinho, administrado pelos Irmãos Maristas (católicos da Congregação de Maria), onde se tornou um dos mais destacados alunos daquela Instituição. Terminado o 1º grau (hoje ensino fundamental), quis seguir para a Capital e ingressar na Escola Agrotécnica de Manaus - o mais importante centro de formação de tecnólogos da Região Norte -, mas faltou-lhe recurso material para oficializar seu ingresso. Contra sua vontade, precisou esperar um pouco mais. O 2º grau (hoje ensino médio), somente foi implantado em Lábrea na década de 1980, com os cursos de Agropecuária e Magistério. Em 1985, Lacerda inicia o curso de Magistério, o qual foi concluído em 1987. Apesar de continuar trabalhando na antiga Emetar-AM, hoje IDAM, precisou passar por outra longa espera para continuar seus estudos. Faltava na sua cidade, Universidade. No entanto, em 2013 prestou vestibular para Administração pela UFAM/UAB (Polo de Lábrea), graduando-se em julho de 2017, com aulas presenciais e online. Contudo, havia mais "uma pedra no meio do caminho". Em meados de 2014, o dedicado acadêmico foi acometido por um AVC isquêmico que o deixou com sérias sequelas. Mas, as suas forças adquiriram mais resistência e a sua fé em Deus redobrou. Continuou. Nos estudos, teve ajuda ilimitada de coordenadores e professores. Seu exemplo de coragem e persistência fê-lo vencer as adversidades. Seu exemplo deve ser copiado. Trata-se de uma verdadeira lição de vida.

Porém, para graduar-se precisava apresentar à Universidade uma monografia de conclusão acadêmica, em cumprimento a grade curricular, é óbvio. Assim, pesquisou e apresentou um trabalho sobre as ações da Pastoral da Criança na Prelazia de Lábrea (AM). Pense num estudo interessante, de temática diferente e com dados esclarecedores. Portanto, digno de uma reflexão, haja vista ser uma atividade digna de louvor social. Segundo o autor, como a Pastoral, em qualquer lugar do país, conta com um exército de voluntários no atendimento dos menos favorecidos, ele pensou: "Como fazer um marketing social para conseguir esse voluntariado num cantinho tão equidistante dos grandes centros urbanos brasileiros?"  Com esse pensamento a respeito, foi reunir dados e informações e realizou um excelente estudo.

Primeiro, procurou compreender as dificuldades pelas quais passa esse "braço" da Igreja Católica, na maior aquisição de voluntários para o melhor desempenho da Pastoral da Criança nessa cidade, cujo objetivo é "estar a serviço da vida e da esperança, da fé, do amor, da alegria e da paz, através da evangelização". Depois saiu à procura da causa motivadora para pouco interesse por parte de mais voluntários para a Missão. Nesse contexto, sua pesquisa viria "conscientizar a sociedade", haja vista, que os benefícios obtidos têm fins sociais, principalmente, "em prol da criança e de mães carentes". Por exemplo, benefícios como: saúde da gestante; crescimento saudável do filho; baixa mortalidade infantil, entre outros. Tudo de acordo com as exigências da OMS e sem fins lucrativos, é claro.

O marketing social "tem por objetivo principal atenuar ou eliminar os problemas sociais, as carências da sociedade relacionadas, principalmente, às questões de higiene e saúde pública, de trabalho, educação, habitação, transportes e nutrição" (1), no terceiro setor (governo - organização do 1º setor; empresa privada - organização do 2º setor e a combinação dos dois primeiros, forma o 3º setor). Segundo Simone de Castro Tavares Coelho, citada na pesquisa, "o terceiro setor ainda encontras-se sem uma definição muito precisa, englobando diversas denominações que são usadas sem uma definição específica, causando uma divergência terminológica para o conceito". Isso em comparação ao trabalho realizado no Brasil e o realizado nos EUA, por exemplo.

A atividade da pessoa voluntária trata sempre de um fator de valor não mensurado para a comunidade, para a instituição que toma essa iniciativa e nem para o próprio voluntariado, uma vez que não se trata de bens materiais para compensação. Aí entra a responsabilidade social, como "o grau de obrigações de uma organização em assumir ações que protejam e melhorem o bem-estar da sociedade na medida em que ela procura atingir seus próprios interesses" (1).

Assim, o voluntariado corporativo passa a ser o "caminho de busca de conscientização das pessoas, de mobilização de grupos sociais marginalizados na defesa de seus direitos, influências de políticas públicas e outras ações no campo da cidadania". Por esse prisma, a Pastoral da Criança procura reunir todos os meios necessários para uma atuação eficaz na pessoa do voluntário, o qual, vai "ao encontro das famílias de sua comunidade", identificando mães e bebês que estão precisando de ajuda, acima de tudo, onde as ações das políticas públicas demoram a chegar. 

A pesquisa detectou que o "trabalho voluntário" é "a principal causa do afastamento de alguns líderes", ou seja, a falta de interesse de participantes reduz o número, e muito, de famílias assistidas. Então, como motivar mais adesão de novos líderes? Vejamos: o referencial teórico é bem traçado. Porém, na prática, a vivência é outra. É preciso aumentar o número de participantes para que haja "equidade social", para serem exercidos os direitos fundamentais do cidadão, e assim, reduzir o número de excluídos. Passando a ser, o marketing social, uma referência para todos.

Seja para "desenvolver atitudes construtivas para auxiliar as mudanças de comportamentos desejados", seja para "atenuar ou eliminar os problemas sociais, as carências da sociedade relacionadas, principalmente, às questões" de infraestrutura básica comunitária. Esse é o resultado do trabalho do voluntário. Por sinal, ele deve saber das adversidades a serem enfrentadas, uma vez que sua tarefe não lhe proporciona vantagens pecuniárias. mas sim, recompensa social de interesse difuso.

"O serviço social voluntário no Brasil foi criado através da lei 9.608/98, de 18.02,98, que assim o define como "atividade não remunerada, prestada por pessoa física a entidade pública de qualquer natureza, ou à instituição de fins não lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social, inclusive mutualidade".

Em 1982, quando de "uma reunião sobre a paz mundial", James Grant, diretor executivo do UNICEF, propôs a D. Evaristo Arns, que a Igreja poderia ser uma entidade-parceira, no resgate de crianças vítimas de desnutrição com medidas simples, mas de eficaz prevenção: o uso do soro caseiro. De volta ao Brasil, D. Evaristo "incumbiu à Dra. Zilda Arns Neumann (1934-2010), médica pediatra e sanitarista, a missão de levar adiante o propósito do serviço, em decorrência de já haver percebido" o quanto era grande o número de crianças em situação de risco.

Em 1983, foi criada, na cidade de Florianópolis, a Pastoral da Criança. No ano seguinte, o projeto foi apresentado na Assembleia dos Bispos do Brasil com entusiasmos pelos primeiros resultados obtidos. Assim nasceu a Pastoral da Criança a qual  está legalmente constituída, é idônea e tem estatuto próprio com definições para a execução de suas atividades internas. 

Aprovada pela CNBB para todas as Dioceses Brasileiras, coube à Prelazia de Lábrea implantar a Pastoral em suas Paróquias, a cargo do Bispo D. Jesus Moraza, sendo realizado com sucesso, apesar  dos graves problemas de desigualdades sociais naquele Município, não diferente do resto do país. Só para exemplificar, segundo o IBGE (2010), Lábrea possuía 5.583 crianças de até 6 anos. Dessas, 5.003 eram de famílias pobres. E desse número, apenas 1.210 aram atendidas e acompanhadas pela Pastoral, por falta de voluntários. Até conclusão da pesquisa, em 2017, eram apenas 96 líderes. Quarenta deles foram entrevistados e, segundo os mesmos: 1. Falta divulgação (30%); 2. Desinteresse da comunidade (40%); e 3. Falta remuneração (30%).

No tocante a Prelazia de Lábrea, a pesquisa aponta que a instituição "precisa lançar um olhar" mais voltado para as atividades da Pastoral da Criança, "e observar novos métodos que tragam as motivações necessárias, para que voluntários (...) desempenhem com maior altivez as suas funções" (1). Consta num dos gráficos - do início de 2014 até junho de 2016 -, que vem caindo muito o número de voluntários cadastrados. E, para piorar esse cenário, 60% dos entrevistados disseram estar insatisfeitos com as atividades que realizavam. Tem mais: o baixo nível de escolaridade dos entrevistados e assustador: 1. Ensino Fundamental Incompleto (30%); 2. Ensino Fundamental Completo (10%); 3. Ensino Médio Incompleto (40%); 4. Ensino Médio Completo (10%); 5. Ensino Superior (10%). Sabe-se que não é nível de escolaridade que faz a pessoa ser um excelente voluntário, seja nessa  Missão ou não, mas fica difícil maior adesão de novos interessados para uma causa tão nobre com essa perspectiva.

Eis aqui, para o conhecimento dos valiosos leitores do Facetas, uma síntese dessa interessante pesquisa nos enviada pelo autor. Diferentemente de tantos temas, às vezes, só copiados e sem informações didáticas ou técnicas necessárias ao que vieram. Logo ele que que tanto lutou, estudou e conquistou o seu bacharelado em Administração, cabe citar essa máxima dos antigos Lácios: Libertas quae sera tamen, "liberdade ainda que tardia é a tradução mais comumente dada ao dístico em latim", para fins de comparação. No caso do autor em questão, tardou, mais veio  a "liberdade" por meio dos estudos, da formação, merecidamente concluídos. Caso contrário, seria mais um analfabeto funcional na lista de milhões de brasileiros que vivem nessa condição, de Norte a Sul do gigante adormecido.

Finalmente,você Carlos Lacerda, que sempre teve convicção das suas certezas profissionais e pessoais, assim como teve fé e coragem inabaláveis para superar a grave doença que tentou ceifar-lhe a vida há quase seis anos, trabalha; vive em paz com a família e tem uma legião de amigos,  saberá refletir bem sobre as palavras abaixo do antropólogo e educador brasileiro Darcy Ribeiro (1922-1997), que disse: 

                  "Sempre há o que aprender servindo,
                    vivendo e, sobretudo trabalhando.
                    Mas só aprende quem se dispõe 
                    a rever suas certezas". 

Perguntinha útil - Você sabia que não há no Brasil, Ministério da Cultura. E que, em 17 meses do atual governo, quatro pessoas já foram nomeadas/demitidas da  Secretaria Nacional da Cultura?

Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Arte por Angeline Gomes

Fonte
1.Marketing Social no terceiro setor: estudo de caso na Pastoral da Criança no Município de Lábrea/AM, UFAM/2017. 

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1 Comentários

  1. Parabéns!
    O resgate da História do homem é o grato resgate da vida que perdida não estava, mas parecia está adormecida na memória social. Iniciativas como esta só podem merecer elogios, principalmente quando, por trás da versão histórica está a curiosidade epistemológica de quem a conta. Isto está muito bem retratado na feliz matéria "Voluntariado e Compromisso da Pastoral da Criança" que rememora a vida de Antonio Carlos Lacerda de Souza. É o que se espera de quem valoriza as pequenas-grandes figuras humanas. É o que se espera de quem carrega na bagagem gnosíológica mais que intelectualidade, a virtude da cidadania horizontal.

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